A moto-sem-cabeça
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em janeiro
de 1986
Disse que não queria dar declaração a mais
ninguém e desejava ficar sozinho, esquecer de tudo que acontecera.
Todos deveriam sair da sala, não mais procurá-lo, pois
nada mais teria para relatar. Tudo fora minuciosamente contado, para
surpresa dele, que não costumava conversar assim, dando detalhes.
Pedira que todos saíssem. Estava cansado daquelas perguntas,
incomodado com aquela gente ao seu redor. Naquela sala pequena, de
segunda a sexta-feira, analisava montes de papéis, assinando,
carimbando e grampeando documentos, retirando grampos, dando atestação
e pareceres. Precisava ficar só, apagar tudo.
Colocar todos para fora da sala fora fácil, mas esquecer o
ocorrido há cerca de oito horas não estava sendo fácil.
Tudo por culpa de um repórter de rádio, que assistira
a uma ação sua, de salvar um garoto de três anos
de ser atropelado por uma moto, pouco depois das 7 horas, quando
se dirigia para o trabalho. Nem mesmo ele sabia como ocorrera tudo,
como conseguira vencer o peso de 39 anos sedentários puxar
o garoto para seus braços e rolar pelo asfalto, evitando que
fosse colhido pela moto.
Não adiantou o repórter insistir com ele para dizer
o número das placas policiais do veículo ou descrever
o motociclista. Na verdade, não estava certo se havia mesmo
um piloto. Poderia não haver. Sim, poderia ser igual à mula-sem-cabeça
de que tanto lhe falara sua avó. Por que não? Na cidade
grande, os padres não usam batinas e não há como
seguir seus passos. Também não há animais nas
ruas. Então, poderia ser a moto-sem-cabeça.
O repórter não quis acreditar nessa possibilidade.
Queria era que ele soubesse de outras coisas. Quem é o responsável
pelo tráfego assassino nas cidades? Esta foi a pergunta que
fez, repetida, depois, por outros repórteres de rádio,
televisão e jornais. Todos queriam saber como dar um basta
na situação. Não, ele não sabia e não
estava interessado em responder perguntas assim. Por que não
iriam perguntar aos pais da criança? Talvez soubessem, pois
tinham carro. Sabia disso pela garagem que havia ao lado da casa
deles. Se eles possuíam carro saberiam do trânsito melhor
do que ele e poderiam emitir opinião. Ele não, pouco
andava de automóvel e quase não saía do bairro,
onde ficava o seu trabalho.
Sentiu que seu corpo doía, principalmente os cotovelos, ralados
em conseqüência do tombo que fora obrigado a dar, para
proteger o garoto. A roupa estava suja. Não tivera tempo de
voltar à sua casa para trocá-la. Tinha um trabalho
volumoso pela frente naquele dia e, com todo aquele rebuliço
dos repórteres, que invadiram a sala, tão logo a rádio
anunciou o ocorrido, dando o endereço do seu trabalho, o serviço
atrasou. Daí seria interessante que retomasse o mais breve
possível seus afazeres. Será que poderia? O grito da
criança, o agradecimento da mãe, o microfone do repórter
da rádio, o barulho da moto, a chegada de mais repórteres
horas depois. Tudo isso mudara sua rotina.
Chegou até a ensaiar um discurso sobre o combate à violência
no trânsito, como criar filhos. Mas, alguém ouviria
suas palavras? Os repórteres anotaram tudo o que dissera,
ele pôde ver isso, enquanto era entrevistado. Mas, alguém
levaria em consideração suas palavras? Não,
não as levaria. Dele, queriam apenas o carimbo de “aprovado”, “desaprovado”, “arquive-se”.
Bastava. Para dar opinião, outras pessoas; não ele.
Então, por que perguntaram tanta coisa a ele naquela tarde?
Se suas opiniões não seriam levadas em consideração,
podendo até mesmo não ser publicadas, por que, então,
quiseram saber dele o que achava da Constituinte, da dívida
externa brasileira, do Partido Comunista, do Plano Bresser e de outras
coisas tão distantes do que acontecera naquela manhã?
Não, não entendia o porquê. Muitas perguntas,
muitas fotos, muita luz, muitos fios espalhados pela sua sala. Para
quê? Para nada. Ele tinha certeza de que seria para nada.
Afinal, que opinião poderia dar um funcionário público,
sem filhos e morando sozinho, a respeito de leis, de controle de
trânsito, de economia, de educação às
crianças? Nenhuma. Sabia disso.
Seria melhor voltar ao trabalho, agora que a sala estava vazia e
em silêncio. Apertou os olhos, valendo-se dos dedos polegar
e indicador da mão direita. Consertou o nó da gravata
e voltou aos seus papéis. A sala continuava em silêncio.
O aparelho de ar-condicionado, há dias avariado, permitia
que tudo ficasse em completo silêncio, rompido somente quando
ele batia o carimbo sobre os papéis ou, então, quando
a campainha do telefone tocava, com chamada do diretor para que ele
fosse até a sua sala. Mas, nem isso vinha ocorrendo nos últimos
dias. O diretor estava viajando, e as duas secretárias que
trabalhavam no setor faltaram naquele dia. E o mensageiro? Sim, havia
o mensageiro, mas estava entregando correspondências.
Tudo estava tranqüilo, agora que os repórteres haviam
saído. Sua atenção foi despertada pelo barulho
do motor de moto. Correu até a janela, curioso, mas não
conseguiu divisar a cabeça do piloto, coberta por um capacete
escuro. Com certeza o piloto não tinha cabeça. Era
a moto-sem-cabeça, em que não quiseram acreditar. Voltou
para a mesa e murmurou para ele mesmo: Nos noticiários da
televisão e rádio nem sempre estão interessados
no que as pessoas dizem, mas em respostas que querem que sejam dadas.
A moto-sem-cabeça existia, passara, novamente, pela rua e
os repórteres queriam que ele ignorasse e falasse do que não
entendia, do que não vira. Por quê?
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