| Algumas crônicas
publicadas no jornal A TARDE (Salvador-BA)
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Desejo de filha
A moto-sem-cabeça
Voz de comando
O inimigo do Rei
O sinal dos Céus
Mamãe, compre uma vaca para mim

foto davi donato.2007
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Desejo de filha
Conto vencedor de um concurso realizado pelas Óticas Ernesto, de Salvador, entre jornalistas, no Dia dos Pais, em 2001, e publicado em A TARDE, em forma de publicidade da ótica, para marcar a data.


Eu estava na lanchonete quando pai e filha entraram e se dirigiram ao balcão onde ficavam os salgados, doces, bolos e petiscos. A menina devorou tudo com os olhos e, discretamente, falou do que lhe agradava. O pai respondeu-lhe algo. Ela riu, censurou-lhe as palavras com um franzir de sobrancelhas e, depois, tocou-lhe, carinhosamente, na ponta do nariz.
Aquela alegria trouxe-me doces imagens de minha filha quando pequena e, então, prestei atenção nos dois. Poucos dos presentes ouviram o pedido da menina, mas as palavras embargadas do pai ressoaram na sala:
Se você escolher o salgado, não poderei pagar o suco; se você pedir o suco, não terei dinheiro para o salgado. Veja o que for melhor!
Quero o suco! –, respondeu a menina. E ambos voltaram às suas confidências, em voz baixa e amigável. Pai e filha eram como uma só pessoa, numa aura que contaminava a todos na lanchonete.
Os dois permaneceram conversando, baixinho, coisas que somente ambos ouviam. Eram sussurros, acompanhados de sorrisos e afagos. O suco já estava sendo preparado. Nem a menina de 14 anos, nem o pai prestavam mais atenção ao balcão, até que foram surpreendidos por uma abordagem:
Você se incomoda se eu pagar a merenda da menina? Perguntou um senhor, enquanto abria a carteira, diante do caixa, para saldar sua conta.
O pai ficou atordoado, sem ter resposta. Olhou para a filha, como a pedir ajuda, depois retornou as vistas para o homem que lhe oferecia auxílio, mas, antes que dissesse algo, a menina respondeu:
Não, senhor! Não é preciso.
Assim que o homem deixou a lanchonete, o pai perguntou à filha porque não aceitara a oferta do desconhecido, de lhe pagar a merenda. A menina riu um riso angelical e respondeu:
Você me deu o suco com amor de pai; aquele homem quis pagar a merenda porque sentiu pena de mim. Eu não quero compaixão, quero que alguém dê trabalho a você.

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A moto-sem-cabeça
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em janeiro de 1986

Disse que não queria dar declaração a mais ninguém e desejava ficar sozinho, esquecer de tudo que acontecera. Todos deveriam sair da sala, não mais procurá-lo, pois nada mais teria para relatar. Tudo fora minuciosamente contado, para surpresa dele, que não costumava conversar assim, dando detalhes. Pedira que todos saíssem. Estava cansado daquelas perguntas, incomodado com aquela gente ao seu redor. Naquela sala pequena, de segunda a sexta-feira, analisava montes de papéis, assinando, carimbando e grampeando documentos, retirando grampos, dando atestação e pareceres. Precisava ficar só, apagar tudo.
Colocar todos para fora da sala fora fácil, mas esquecer o ocorrido há cerca de oito horas não estava sendo fácil. Tudo por culpa de um repórter de rádio, que assistira a uma ação sua, de salvar um garoto de três anos de ser atropelado por uma moto, pouco depois das 7 horas, quando se dirigia para o trabalho. Nem mesmo ele sabia como ocorrera tudo, como conseguira vencer o peso de 39 anos sedentários puxar o garoto para seus braços e rolar pelo asfalto, evitando que fosse colhido pela moto.
Não adiantou o repórter insistir com ele para dizer o número das placas policiais do veículo ou descrever o motociclista. Na verdade, não estava certo se havia mesmo um piloto. Poderia não haver. Sim, poderia ser igual à mula-sem-cabeça de que tanto lhe falara sua avó. Por que não? Na cidade grande, os padres não usam batinas e não há como seguir seus passos. Também não há animais nas ruas. Então, poderia ser a moto-sem-cabeça.
O repórter não quis acreditar nessa possibilidade. Queria era que ele soubesse de outras coisas. Quem é o responsável pelo tráfego assassino nas cidades? Esta foi a pergunta que fez, repetida, depois, por outros repórteres de rádio, televisão e jornais. Todos queriam saber como dar um basta na situação. Não, ele não sabia e não estava interessado em responder perguntas assim. Por que não iriam perguntar aos pais da criança? Talvez soubessem, pois tinham carro. Sabia disso pela garagem que havia ao lado da casa deles. Se eles possuíam carro saberiam do trânsito melhor do que ele e poderiam emitir opinião. Ele não, pouco andava de automóvel e quase não saía do bairro, onde ficava o seu trabalho.
Sentiu que seu corpo doía, principalmente os cotovelos, ralados em conseqüência do tombo que fora obrigado a dar, para proteger o garoto. A roupa estava suja. Não tivera tempo de voltar à sua casa para trocá-la. Tinha um trabalho volumoso pela frente naquele dia e, com todo aquele rebuliço dos repórteres, que invadiram a sala, tão logo a rádio anunciou o ocorrido, dando o endereço do seu trabalho, o serviço atrasou. Daí seria interessante que retomasse o mais breve possível seus afazeres. Será que poderia? O grito da criança, o agradecimento da mãe, o microfone do repórter da rádio, o barulho da moto, a chegada de mais repórteres horas depois. Tudo isso mudara sua rotina.
Chegou até a ensaiar um discurso sobre o combate à violência no trânsito, como criar filhos. Mas, alguém ouviria suas palavras? Os repórteres anotaram tudo o que dissera, ele pôde ver isso, enquanto era entrevistado. Mas, alguém levaria em consideração suas palavras? Não, não as levaria. Dele, queriam apenas o carimbo de “aprovado”, “desaprovado”, “arquive-se”. Bastava. Para dar opinião, outras pessoas; não ele. Então, por que perguntaram tanta coisa a ele naquela tarde? Se suas opiniões não seriam levadas em consideração, podendo até mesmo não ser publicadas, por que, então, quiseram saber dele o que achava da Constituinte, da dívida externa brasileira, do Partido Comunista, do Plano Bresser e de outras coisas tão distantes do que acontecera naquela manhã? Não, não entendia o porquê. Muitas perguntas, muitas fotos, muita luz, muitos fios espalhados pela sua sala. Para quê? Para nada. Ele tinha certeza de que seria para nada.
Afinal, que opinião poderia dar um funcionário público, sem filhos e morando sozinho, a respeito de leis, de controle de trânsito, de economia, de educação às crianças? Nenhuma. Sabia disso.
Seria melhor voltar ao trabalho, agora que a sala estava vazia e em silêncio. Apertou os olhos, valendo-se dos dedos polegar e indicador da mão direita. Consertou o nó da gravata e voltou aos seus papéis. A sala continuava em silêncio. O aparelho de ar-condicionado, há dias avariado, permitia que tudo ficasse em completo silêncio, rompido somente quando ele batia o carimbo sobre os papéis ou, então, quando a campainha do telefone tocava, com chamada do diretor para que ele fosse até a sua sala. Mas, nem isso vinha ocorrendo nos últimos dias. O diretor estava viajando, e as duas secretárias que trabalhavam no setor faltaram naquele dia. E o mensageiro? Sim, havia o mensageiro, mas estava entregando correspondências.
Tudo estava tranqüilo, agora que os repórteres haviam saído. Sua atenção foi despertada pelo barulho do motor de moto. Correu até a janela, curioso, mas não conseguiu divisar a cabeça do piloto, coberta por um capacete escuro. Com certeza o piloto não tinha cabeça. Era a moto-sem-cabeça, em que não quiseram acreditar. Voltou para a mesa e murmurou para ele mesmo: Nos noticiários da televisão e rádio nem sempre estão interessados no que as pessoas dizem, mas em respostas que querem que sejam dadas. A moto-sem-cabeça existia, passara, novamente, pela rua e os repórteres queriam que ele ignorasse e falasse do que não entendia, do que não vira. Por quê?

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Voz de comando
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em janeiro de 1988

Era uma tarde de final de agosto, a menos de duas semanas do 7 de Setembro. Os alunos entraram em forma para mais um ensaio preparatório do desfile cívico. Dois pelotões, um feminino e um masculino, marcavam passos na frente do ginásio, que ficava numa grande praça, a maior da cidade, e por isso sempre reservada a parques de diversões, circos e touradas que percorriam freqüentemente a região. Nos dias de festas cívicas, a exemplo do Dia da Independência, tornava-se pequena, tamanho era o número de pessoas que acorria ao local para assistir à marcha dos estudantes.
Os ensaios despertavam a atenção de todos, e a diferença, diziam, entre a preparação e a parada estava nos trajes alegóricos que os estudantes vestiam, no dia do desfile. Marchavam bem e a população fazia questão de assistir a esses ensaios. Até os compromissos eram marcados para antes ou depois da marcha do ginásio.
A praça estava tomada de gente. O professor de Educação Física, que comandava os pelotões, orgulhava-se dos alunos, sempre obedientes às suas ordens. E andava da cabeceira à retaguarda da fila, sempre a bater com o apito contra sua perna direita, a cada dois passos, enquanto observava-os marcando passos cadenciados. 
A bateria não errava e todos acompanhavam o ritmo das batidas nos tambores e caixas. Em dado momento, surge a diretora, saindo do interior do prédio do ginásio. Parou defronte do pelotão das mulheres, após divisar a filha que estava em formação, e gritou:
- Aparecida, deixe esta fila e venha cá, correndo. É preciso que você vá até nossa casa, urgente. Apresse-se!
O professor de Educação Física assustou-se. Olhou para a diretora, depois na direção do pelotão feminino, procurando a estudante ainda em forma. Sem poder sair da fila, pois estava sob voz de comando, ela se perguntava: “Atendo ao apelo da minha mãe ou continuo na fila?” Optou por ignorar o chamado, entendendo que não vinha da parte da diretora, autoridade máxima na hierarquia do ginásio, mas da sua mãe, portanto, sem direito a quebrar a disciplina. O professor, intimamente, aprovou a decisão da estudante. Depois, envaidecido por não ter sua ordem desrespeitada, dirigiu-se à diretora e perguntou:
- Senhora, o que se passa? Aparecida não pode deixar a fila, assim. É preciso que seja dado um comando. Alguma coisa de errado está acontecendo em sua residência?
A diretora quase não conseguia responder. Levantou o braço direito e apontou para uma grossa nuvem de fumaça que se via por cima do ginásio:
- É aquilo, veja. Um incêndio. Parece que é perto da minha residência. Quero que Aparecida vá até lá, urgente!
O professor de Educação Física obedeceu ao desejo da diretora, ordenando:
- Atenção, pelotões... Alto! Apenas o feminino, des-can-saaaar!
Os movimentos aflitos da diretora, as ordens do professor de Educação Física, o silêncio da bateria e a fumaça ao longe despertaram a atenção do público, que começou a se mover, como gado inquieto, em direção ao incêndio.
Aparecida pôde deixar a fila. Sua mãe gritou-lhe:
- Corra, veja o fogão, lá em casa. Parece-me que deixei o registro do botijão aberto e isso pode ser um perigo.
O professor de Educação Física viu a missão ser dada, mas não entendeu o porquê de tanta apreensão. Afinal, a casa estava a 500 metros do local do incêndio, ademais, duas ruas largas e mais um quarteirão separavam a casa da diretora do velho depósito de mamona que ardia em chamas. 
O perigo era inexistente, mas o professor entendeu a razão do receio quanto a uma explosão. A diretora possuía em sua casa um dos poucos mais de 40 fogões a gás que havia na cidade. Contrariado por não mais contar com o público para assistir à marcha, o professor retomou seu posto de comandante:
- Atenção, pelotão feminino... Alinhamento! Tomar distância. Sennnnntidoooo!
Ele não viu aparecida na fila, certamente cumprindo as ordens dadas pela mãe-diretora. Levou o apito aos lábios e, com alguns silvos, ordenou que tocassem os tambores.
- Ordinário, marche! - gritou, passando a acompanhar os alunos, andando de maneira cadenciada, sempre batendo com o apito contra a perna direita: “Um, dois, um, dois...”
Enquanto os alunos marchavam na praça quase vazia de público o fogo diminuía, lá no depósito de mamona. Não houve explosão, mas o fogo, nessa tarde, queimou o brilho de um dia de preparação para o 7 de Setembro. Era o que passava pela cabeça do professor de Educação Física quando ele e os dois pelotões já não mais se encontravam na praça.

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O inimigo do Rei
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em fevereiro de 1992

Mal o motorista parou o ônibus em frente ao bar onde funcionava o guichê da empresa, e desligou o motor, já se ouvia a canção: “... será que tudo que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda...”.
A música invadia o interior do ônibus e se misturava ao vozerio geral, enquanto os passageiros, empoeirados e famintos, deixavam seus assentos. Todos queriam se livrar da poeira, companheira de viagem da qual não se conseguia fugir naquela região. A cada parada era preciso lavar o rosto, sacudir o pó vermelho da estrada e assoar o nariz.
Sempre foi assim até a chegada do asfalto naquele trecho da BR-030, no sudoeste do Estado, entre Brumado e Guanambi, passando por Caetité . Os que desconheciam as condições da viagem praguejavam, ficavam irritados e, à mínima provocação, reagiam. Uma cerveja gelada, tomada enquanto o Sol escaldante torrava as ruas poeirentas, acalmava. Às vezes, provocava efeito contrário, e poucos copos deixavam um ou outro viajante exaltado, irritado:
- Não há um disco melhor para se ouvir neste bar? -, perguntou um rapaz, com ar de quem não estava gostando da canção do Roberto Carlos.
Já acostumado a provocações, o proprietário não deu resposta. Discutir com passageiros seria perda de tempo e de dinheiro. A empresa de ônibus poderia retirar seu guichê do local e, com isso, ele perderia os fregueses diários que passavam pelo ponto. Mas a crítica incomodou-o. Isso ele não podia negar. A parada do ônibus na cidade era de 45 minutos, para almoço. E o passageiro descontente já estava na terceira cerveja. A maioria procedia de Salvador.
“ ... além do horizonte deve ter, algum lugar bonito pra viver em paz...”.
Roberto Carlos continuava a cantar. Um outro LP havia sido colocado no toca-disco. As pessoas entravam e saíam do bar, enquanto a música se perdia em meio às conversas, provocando uma barulheira. Outros já davam opiniões sobre a música brasileira, a respeito das condições da estrada, sobre a crise, a greve dos estudantes e a falta de craques no futebol. A sala do bar mais parecia uma Babel em pleno sertão.
O rapaz, então, sentiu-se animado e iniciou seu discurso. Falou da Música Popular Brasileira, “com letra maiúscula”, como assim a considerava. Prosseguiu tecendo comentários sobre o rock, e o que ele considerava de importância para a cultura do povo brasileiro!
Falou tanto que despertou a atenção de um vaqueiro, amante das canções de Roberto Carlos, Odair José e da dupla Milionário e Zé Rico.
O calor lá fora já era sentido também no salão do bar. Agora, todos participavam da conversa e, para desespero do defensor de Roberto Carlos, o assunto descambou para a revolução cultural de Mao, Guerrilha do Araguaia e a morte de Lamarca no sertão baiano.- Você já ouviu falar no Nelson Mandela, que vem lutando pela libertação dos negros? -, perguntou o rapaz, já com a língua enrolada, sob efeito do álcool. O vaqueiro sentiu-se derrotado. Desconhecia o assunto e nada podia fazer para defender seu cantor predileto.
- Não conheço ninguém com esse nome, não senhor. Sei de outro preto, que vive no fundo da igreja e que o senhor bem que podia conhecer, para o seu bem -, respondeu o vaqueiro, saindo do bar.
“ ... eu vou seguir, uma luz lá no alto”.
“ Eu vou ouvir, uma voz que me chama...”.
O salão já estava quase vazio. Os passageiros se dirigiam para o ônibus, alimentados, satisfeitos, prontos para prosseguir a viagem. O rapaz permaneceu com o copo na mão, sem entender a razão da saída apressada do vaqueiro, que não aceitou o gole que ele ofereceu. Voltando-se para o dono do bar, perguntou sobre o preto e o vaqueiro.
- 'Liga não, moço. Não é gente importante, não. É Tõe de Luzia, que faz caixão de defuntos.
O último gole de cerveja, já quente, quase não desceu pela garganta. Assustado, o rapaz entrou no ônibus, e o motorista deu a partida no motor.
“ ... eu vou subir, a Montanha...”.
Pela janela do ônibus, o rapaz pôde divisar o vaqueiro, que retornava, em direção ao bar, acompanhado de um homem. Parecia negro. Não podia ver direito, pois os raios do Sol batiam-lhe fortes contra as vistas. Seria o tal Tõe de Luzia?
“ ... e ficar bem mais perto de Deus e rezar...”.
Recostou-se na cadeira e respirou aliviado, ainda ouvindo a música.

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O sinal dos Céus
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em setembro de 1997

Ele fechou o livro, cerrou os olhos, pressionando-os depois com os dedos abertos da mão, e pensou no que havia feito de útil até então. Chegar ao patamar onde estava, não fora difícil, embora trabalhoso e sacrificante. Já contava com 40 anos de idade e a maior parte da sua vida, dos sete àquela data, estudara e buscara seu caminho, uma estrutura.
Pouco entusiasmado com o que ouvia a seu respeito, de homem bom, buscava o amor de Deus, a quem passara a devotar seus dias e a pedir que o alistasse em seu Exército. Um dia, trespassado pela idéia de que poderia seguir os caminhos de Cristo, rogou a Deus sinais da Sua presença, que lhe mostrassem oportunidades para praticar o bem, para que pudesse viver como os filhos santos de que falavam os Evangelhos.
Obcecado pela idéia e com visões, saiu deixando trancado, no interior da casa, tudo que materializava seu amor ao mundo.
Variado, e à espera de um sinal dos céus, vagou pela cidade, olhando ao redor, plantas e animais, até que sua atenção foi despertada pelos gritos de uma anciã, que, sobre a faixa de segurança, tentava vencer o trânsito dos carros, louco, desvairado. “Uma insana, pois que não espera o sinal fechar”, pensou, mas seguiu adiante, esbarrando-se em duas crianças, maltrapilhas, pedindo ajuda em um cruzamento de ruas.
Mas sua cruzada ainda não findara e prosseguiu pela cidade certo de que haveria de receber um sinal para que iniciasse seu trabalho. O sinal não lhe apareceu, não como ele esperava, e, desencantado, voltou para casa, repassando cenas vistas durante seu giro pela cidade. E orou:
- Meu Deus! Quanta miséria, quanta dor e quanto sofrimento assolam os dias de seus filhos. Meu Pai, eu O amo, com toda força do meu coração, então, ajude-me, ilumine meu caminho, para que possa socorrer meu irmão.
Ainda rezando, abriu os Evangelhos e as vistas, lacrimejantes, deram com as palavras sagradas: “Quem não ama a seu irmão, a quem vê, não é possível que ame a Deus, a quem não vê”.
Seria o sinal? Certamente que sim e o coração apertou-lhe o peito, e percebeu a prepotência, a vaidade e a arrogância que lhe tomaram a alma, a ponto de se colocar acima de todos. Chorou e reviu, na quietude do quarto, a anciã, as crianças na rua, os miseráveis, todos a quem ele podia tocar, a pedir-lhe ajuda.


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Mamãe, compre uma vaca para mim
Conto publicado no Caderno 2 de A TARDE, na coluna Ultraleve, em agosto de 1998
Dedicada à filha de Miriam Donato e Asdrúbal, médicos em Guanambi

A criação da filha, uma sapeca menina de quatro anos de idade, era uma das suas preocupações. A pequena sabia tudo, conhecia tudo e, às vezes, deixava-a assombrada com seus questionamentos a respeito de Deus, da vida, da morte e do sentido de dormir e acordar, voltar a dormir e acordar, até fechar os olhos para sempre. Estava continuamente a interrogá-la, em conversas que iam até tarde da noite.
Em algumas ocasiões a menina variava o horário de dormir e levantava-se para assistir a filmes infantis colocados no aparelho de videocassete. E varava a madrugada, vendo um, dois e até três filmes, ou reprisando algum de que gostasse mais. Às seis horas, quando a mãe se levantava, no preparo para a labuta diária como ginecologista no hospital local, a menina desligava tudo e enfiava-se sob o seu cobertor ainda quente, antes de os primeiros raios do sol invadirem o quarto.
Então, dormia até o meio-dia. Mas, enquanto não saia, a filha não lhe dava trégua, com interrogações de todo tipo, que interrompia em alguns trechos, ao ver os ponteiros do relógio avançarem-se. Uma pergunta, um pedido, uma reclamação dengosa de criança que há muito não via o pai, presente na lembrança saudosa das duas. “Papai não está mais aqui mamãe; ele tinha prometido um pato de penas brancas e pretas para eu brincar no quintal. Quero esse pato, hoje mesmo, ou não deixo você sair para o trabalho”.
Pacientemente, enquanto se arrumava, argumentava que os dois cães e o gato que criavam na casa, certamente, não deixariam o pato em paz e poderiam até matá-lo. “Isso é triste, mamãe, então me compra uma tartaruga de casco grosso”, pondera a menina, sem alterar suas feições. Também pode ser que os cães não deixem o animalzinho sossegado, além de não haver um local adequado para a tartaruga viver bem, advertia, já concluindo a maquiagem e dando as últimas instruções à babá quanto ao café e à merenda da filha.
“É, mamãe. Pode ter sido por isso que papai não me deu os bichinhos. Meu destino é ficar só, sem um pato, sem uma tartaruga, sem nada para brincar...”, lamenta a menina, sem responder à despedida da mãe. “Minha pequena, não faça chantagem e pense em seu brinquedos, nos amigos que estão à sua volta aqui em casa, na escola, na rua”, pedia, fazendo uma cara de muxoxo que a filha interpretava como cumplicidade.
Ao sair, a filha, sonolenta, estava envolvida pelos cobertores, largada sobre a cama da mãe. Quando retornava, ela estava de pé, tão sapeca quanto estivera no começo da manhã. Ao receber a mãe com beijos e muita festa, a pequena pergunta-lhe, de chofre: “Mamãe, cachorro come vaca?”. A resposta é rápida: “Claro que não, filha. No máximo dá uns latidos, mas comer vaca não, não come”.
A menina ouve a resposta com paciência e introspeção e, depois, arremata: “E gato, come vaca?”. Também não, nem mesmo mia, tamanho o temor do gato por animais de chifres. A pequena dá-se por satisfeita, espera a mãe tomar banho, entrar e sair dos cômodos da casa, antes de se sentar à mesa para almoçar. Então, coloca-se à sua frente e, firmemente, pede:
- Então minha mãe, compre uma vaca para mim e bote no quintal!

 
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