Alcymar Monteiro: Cultura nordestina no contexto mundial
Revista Neon/Salvador - junho/2002
Alegre, espirituoso e sempre
tamborilando quando fala da música nordestina, o cearense Alcymar Monteiro,
49 anos, é uma daquelas pessoas que, ao conversar, derramam
humildade e mostram que ser artista não é apenas ter
louros em volta da cabeça. Começou a cantar com cinco
anos de idade e gravou seu primeiro disco em 1972, aos 19 anos. Foi
criado em ambiente musical, ouvindo reisado, bumba-meu-boi, cantador
de viola, ganzá.
“
Sempre fui apaixonado pela nossa cultura, por esta música linda,
como a da banda cabaçal, de onde Luiz Gonzaga tirou, sabidamente,
o zabumba, para formar o baião”, destaca, com muito conhecimento.
Em entrevista ao jornalista Ari Donato, para a NEON, ele disse que,
dessa forma, inconscientemente, estava formando seu espírito,
seu amor à cultura nordestina.
–
Espiritualmente, sou um artista apaixonado pelos nossos valores. Um
menestrel como o cego Oliveira, para quem eu fiz uma canção
(Um Recado, uma Sanfona, uma Rabeca) com Maciel Melo (eu vou cantar
um xote/dentro dessa brincadeira/que eu trouxe lá da feira/foi
um cego que mandou). São coisas que ouvia ele cantar, com sua
rabeca, sua voz de feira, arrastada: “José de Souza Leão/antigo
cantador”.
Alcymar Monteiro se sente um fruto dessa gente, “desse trabalho
despretensioso, materialmente falando”, que foi o princípio,
o primórdio da cultura nordestina. “Esses folguedos todos
dão uma noção da ópera que é o Nordeste
do Brasil, por isso é que nos meus shows há um balé vestido
a caráter, com maracatu, caboclinho, coco de roda, ciranda,
bumba-meu-boi, frevo e é toda esta parafernália que faz
do nosso show uma opereta nordestina”.
Antes de começar a canta, o adolescente Alcymar passou pelos
programas de calouros e bandas de bailes da região do Cariri,
sul do Ceará. Neto de violeiro e sobrinho de sanfoneiro, ele é o
quinto filho de uma família de nove irmãos, entre os
quais João Paulo Jr., compositor de formação roqueira
com quem divide muitas de suas canções. Fez teatro, estudou
música no Conservatório Alberto Nepomuceno (Fortaleza).
Cursou até o 3º ano de Letras na Universidade do Vale do
Acaraú (CE) e concluiu o curso “na universidade da vida”. É autor
de cerca de 500 composições e gravou 30 discos, dos quais
quatro foram lançados em países da Europa, no Japão
e nos Estados Unidos. Reside, atualmente, em Recife (PE), onde fundou
a Ingazeira Discos e Edições Musicais Ltda. Defende que
o artista deve ser um traço de união entre os que estão
chegando e os que chegaram antes.
Alcymar já gravou ao lado de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca,
Amelhinha, Teca Calazans, Tânia Alves, Alceu Valença,
Zé Ramalho, como intérprete, gravou Chico Buarque, Caetano
Veloso, Lupicínio Rodrigues, Joubert de Carvalho, Raul Seixas,
Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Dominguinhos e teve músicas suas
gravadas por Fagner, Alceu Valença, Dominguinhos, Luiz Gonzaga,
Jair Rodrigues, Maria Alcina, Zé Ramalho e Elba Ramalho. Disse
que pretende gravar com a juazeirense Ivete Sangalo.
ENTREVISTA
NEON - Conheço o seu trabalho, tive o prazer de ouvir a quase
todas suas gravações e sei que sua projeção
foi rápida, mas tem sido duradoura. O que o projetou, ou quem
o projetou?
Alcymar - Espiritualmente, eu acho que isso já estava predeterminado.
Eu sou de uma família musical e isso já vem comigo.
Quando eu comecei a gravar tinha uma noção do que realmente
iria acontecer, tinha a consciência de que teria de trabalhar
bastante. Todo sucesso que eu possa ter feito, que eu possa fazer
ou que, em um futuro, eu possa provocar, é fruto de uma maturação
espiritual, de um trabalho diuturno, de uma persistência e,
antes de tudo, de um crédito que eu sempre tive com a nossa
cultura, as nossa coisas, nossos mitos, santos, lugares. Então,
esse sucesso a que você refere é uma somatória
de tudo em que eu acreditei, acredito e continuarei acreditando.
NEON - De que forma você levou adiante este compromisso, este
trabalho que acredita ser uma predestinação?
Alcymar – Primeiro, diante do amor que tenho pela minha gente,
pela minha terra, pelo meu culto. Esse projeto, de uma forma ou de
outra, é um projeto que chega às raias do nordestantismo,
mesmo, pois é uma coisa do meu compromisso como ser humano,
como artista e como homem do Nordeste, que vê nessa atitude
uma maneira de preservar a dignidade de homem nordestino.
Eu acho que isso é, ante de tudo, um trabalho que me coloca
na condição de ser humano nordestino e, também,
diante desta cultura, tão vasta, tão diversificada,
tão grandiosa, que seria impossível eu, como artista
nordestino contemporâneo, não mostrar essas coisas,
que fazem com que eu seja o artista identificado com a minha origem,
com o meu povo, com a minha gente. Então, tudo isso que eu
tento passar é, antes de tudo, uma coisa responsável,
identificada e, ao mesmo tempo, uma coisa que me torna representante
do meu próprio eu, na condição de ser humano
nordestino.
NEON – As coisas não surgem do nada, sempre há um
ponto, uma origem, uma influência, então, nesta cultura
vasta, quem o teria influenciado na música, na cultura?
Alcymar – Eu gosto de ler, de conhecer as coisas da minha terra,
por isso sofri influência de Zé da Luz, de Pinto de
Monteiro, grandes repentistas, de Lourival Batista, o “Louro”,
grande representante da viola, da cantoria. Afora esses, eu ouvia
Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro...
E toda essa gama de informação me deu condição,
me deu o mapa cultural que de uma certa forma é a mistura
da cantoria com a banda cabaçal (terno de zabumba), com a
novena, com a novena, com o reisado, com os folguedos, com as procissões.
Eu estive interno dois anos (1964 a 1965) em um colégio, quando
pude mesclar o religioso com o profano, a viola com a sanfona, o
pífano com o cabaçal e, então, me considero
um fruto dessas influências todas. Daí minha paixão
por nossa cultura, porque eu vejo que ela é tão diversificada,
tão grandiosa, tão mitológica que não
posso fugir dessas influências, que sofri e que sofro até hoje.
Eu vou muito às feiras livres para ouvir os menestréis,
com a rabeca, cantando verso de cordel. Eu gosto muito desse tipo
de coisa, que considero a raiz mais profunda da nossa cultura, que
chega a ser moura, ibérica, pois é isso que nós
somos.
NEON – Sei da sua admiração por Jackson, que
você citou como sendo uma dessas fortes influências...
Alcymar – É, eu citei Jackson e ele é o aperfeiçoamento
rítmico da nossa cultua, pois ele universalizou a nossa cultura,
descobrindo a possibilidade, dando a liberdade, de se cantar 2x2,
3x1, 4x5, 5x2 (divisões do compasso musical, até então
com predominância 2x4, 3x4, 4x4). Ele deu esta dimensão
aos novos, fez uma escola, criou uma escola, não sei se conscientemente
ou inconscientemente, já que vem aí a espiritualidade
do artista, em tudo que ele faz.
Jackson do Pandeiro foi o aperfeiçoador do baião, do
forró; misturou o forró com o samba, misturou o forró com
o coco, misturou o baião com a cantiga de cego de feira.Veja
em Lamento de Cego (irmão que está me escutando/preste
bem atenção/já vi um cego contando/sua história
num rojão), essas coisas de cantoria e de desafio. Então,
Jackson foi um artista genial, está muito além da sua época,
vai ser descoberto, pelo que representou, pela grandiosidade da sua
obra, daqui há uns 100 anos.
NEON – Ele não tinha, então, uma consciência,
uma dimensão do que estava fazendo, do ponto de vista sociocultural,
e o que produziu é fruto daquilo que você denomina espiritualidade
do artista?
Alcymar – Ele não tinha a dimensão do que fazia.
Hoje, lá do lado espiritual, onde está, ele deve exclamar: “Mas,
rapaz, de repente eu butei tudo isso e num sabia que era tão
grandioso, que era tão forte, que iria influenciar Alcymar
Monteiro, Trio Nordestino, que iria influenciar tantos e tantos poetas
que fazem um trabalho dentro desse setor...”.
Pois nós, artistas, somos setorizados. Eu sou setorizado por
Luiz Gonzaga, pela poesia, pela melodia, pela responsabilidade de
enfocar nossas causas, nossas coisas, nossos dramas, nossas angústias,
nossa beleza, nossa sutileza. Gonzaga foi o grande representante
disso, ideologicamente, o grande arquiteto, o etinólogo de
toda esta gama de coisas bonitas que o Nordeste exportou para o mundo
e que, depois, veio o Jackson do Pandeiro e deu a sampleada final,
na liberdade interpretativa de qualquer um que cante forró e
cante o baião.
NEON – Isso seria a nordestinidade que você defende e
que é forte em seu trabalho?
Alcymar – É, sim, é a nordestinidade. Na verdade, é o
nordestantismo de Luiz Gonzaga e a nordestinidade de Jackson do Pandeiro.
NEON – Qual a diferença...
Alcymar – O nordestantismo é a consciência de
mostrar o povo, uma nação, uma cultura; a nordestinidade é dar
a modernidade que esta cultura precisa para sobreviver. O Jackson
do Pandeiro foi isso...
NEON – Então, os dois são pontos de apoio do
seu trabalho?
Alcymar – Sim, o meu trabalho se funde nesses dois, com mais
o Pinto de Monteiro e Zé da Luz. Com eles eu tenho viola,
cantoria, baião e a liberdade da ritmidade. O meu trabalho,
tenho consciência, se situa dentro desses quatro elementos.
NEON – Quem mais estaria fazendo um trabalho nesta linha, de
preservação da nordestinidade?
Alcymar – Zé Ramalho, embora seja mais puxando para
o mouro, má tem identidade muito grande com o Nordeste. Também,
o Alceu Valença...Alceu Valença é um cantador
de viola (viola nordestina), cantando coisas modernas. Pouca gente
percebe o trabalho de Alceu Valença, que é grandioso,
com a sua liberdade, que lhe deu a condição de ser
um tropicalista dentro do forró. Em Dia Branco ele canta o
travesti (cadê a louca das lantejoulas/o seu vestido de bailarina),
foi além daquela letra que fala só do cotidiano, deu
uma universalidade maior ao forró para o lado poético. é um
cantador de viola cantando forró, o Alceu é isso aí...
NEON – Você trouxe outros compositores para seu último
disco, Levanta Poeira, e um deles foi o Edgar Mão Branca,
de Vitória da Conquista, discípulo de Elomar. Ele,
também, estaria fazendo um trabalho nesta linha?
Alcymar – Faz, sim. Mão Branca é um vaqueiro
universal. Seu trabalho tem algo de modernidade, algo do matuto,
mais humilde, mais simples, do caboclo da roça, que diz: Agora
que a saudade bateu/o que é que eu vou ficar fazendo aqui/nesse
mundão de Deus, sem ela/se é ela é quem governa
eu (versos da canção Sem Ela, gravada por Alcymar).
Ele tem essas coisas do matuto, mas ditas de forma universal, erudita...
NEON – Eu ouvi esta canção, no seu último
disco (Levanta Poeira), e não me pareceu fácil cantá-la,
estou certo?
Alcymar – Você tem razão, é difícil,
porque a música de Mão Branca tem, também, uma
parte harmônica muito difícil, muda de tom, às
vezes, a cada palavra. No verso Agora que a saudade bateu/o que é que
eu vou ficar fazendo aqui/nesse mundão de Deus, por exemplo,
há mudanças de tons com muita rapidez. Isso é coisa
do cantador, de harmonia rápida. Mas, desses novos da Bahia
eu citaria, também, Hugo Luna, já é para o lado
clássico. Eu penso que ele ainda não encontrou o caminho,
o espaço para a popularização, por ele ser meio
erudito na música que faz. Tem algo de erudito naquilo que
ele faz, não se pode negar sua importância.
Nós tempos muita coisa boa por aqui, grandes expoentes. Há um
Elomar, um Xangai, com operetas, com coisas mais para analisar do
que ouvir. O trabalho de Elomar e o de Xangai são trabalhos
analisados antes de serem audíveis. São coisas que
o Nordeste está se preparando para ter esse alcance.
NEON – Talvez, por isso, eles não estejam constantemente
em shows, não sejam tão populares?
Alcymar – Não são, vamos dizer assim, populares,
e fazem questão de não ser, pela própria proposta
de trabalho. Mas, eles têm um público cativo e, no meu
modo de ver, somente serão devidamente compreendidos daqui
muitos anos. Eles são, de uma certa forma, o Verdi (Giusepe
Verdi, italiano, compositor de óperas, 1813-1901) da música
do Nordeste.
NEON – Enquanto Alceu Valença, Elomar e Xangai e outros
ainda não são, devidamente, valorizados surge uma enxurrada
de forrozeiros, de bandas e músicas chulas, com uma inegável
pobreza musical. Qual sua avaliação...
Alcymar – Infelizmente ainda há muita gente que acredita
que o econômico vence o cultural. É puro engano, a cultura é senhora
de si. O próprio povo redescobre a cultura, pois ela existe,
independentemente do que fazem com ela. A cultura é senhora
impassível que, se você lhe estende a mão, ela
retribui e lhe puxa; mas, se você não lhe der a mão,
ela simplesmente segue adiante e você se perde.
No meu entender, o mercantilismo perverso e vulgar é um desserviço à música,
um desserviço ao povo, pois incute na pessoa aquilo que não
lhe é peculiar, deseducando-a, cortando-lhe o poder de transmitir
para as futuras gerações esses ensinamentos, que são
a alma de um povo. A cultura é a alma de um povo.
NEON – Que prejuízos esta prática pode trazer
para um povo?
Alcymar – Muito, muito. O prejuízo será enorme,
quando essas futuras gerações se tornarem pensantes,
pois vão descobrir que não deixaram nada para elas...
Que beberam a água até estagnar a fonte, e uma fonte
estagnada (com a água empoçada) é uma fonte
sem razão de ser, não tem razão de vida. As
gerações dos anos 80 e 90 (décadas de 1980 e
1990) são órfãs de informação,
de credibilidade, de seriedade, e as pessoas que fizeram, que fazem
isso, são responsáveis. Há de se creditar a
essas pessoas essa irresponsabilidade cultural. Elas, essas pessoas,
podem até ter muito dinheiro, mas o dinheiro não é tudo.
Na minha concepção, o dinheiro não é 100%,
pois o tudo para mim é a cultura, é a valorização, é a
sabedoria, é o entretenimento. Cultura neste País,
há de chegar um tempo, será obrigação
do Estado, não vista apenas como diversão.
NEON – Você vê alguma perspectiva, uma luz, uma
mudança. Quem está fazendo algo que lhe traz esperanças?
Alcymar – Há sim, uma luz, que tenho a certeza de que
já se acendeu e que está iluminando numa direção.
Esta luz é a classe pensante, é a classe universitária
brasileira, que perdeu o medo de assumir as suas raízes. Como é uma
classe economicamente, culturalmente privilegiada, ela vai, de uma
certa forma, devagarzinho, palmilhar todo este chão da ineficiência
cultural e vai reconduzir tudo ao seu eixo, à sua coerência.
Cabe ao universitário brasileiro redescobrir nossos valores.
Redimensionar, não reinventar, pois tudo que é bom
já está sendo inventado.
Também a imprensa tem um papel fundamental neste trabalho.
De começar a fechar as portas para as coisas que não
têm significado nem valor, que são, mesmo que economicamente
viáveis no momento, culturalmente danosas. Seu papel é de
redescobrir grandes valores que estão no anonimato, buscar
a cultura marginal, que a qualquer hora dessas vai explodir no País
todo.
NEON – Os universitários já iniciaram este movimento
ao qual você ser refere...
Alcymar – Já começou, sim. Eu mesmo tenho provas
visuais, pois noto em meus shows a presença de uma classe
bonita, fisicamente, o que é muito bom, pois ninguém
gosta de ver nada feio, e o bonito é bonito aos olhos. Vejo
presente uma classe economicamente privilegiada e culturalmente consciente,
que dá ao forró a condição de uma grande
alavanca dessa nova era cultural do Brasil. Tivemos a Bossa Nova,
o Tropicalismo, algumas coisas que não chegaram a se tornar
grandes movimentos, mas que foram importantes, e, com certeza, nos
próximos 20, 30 anos, o forró vai ser a renovação
da cultura do Brasil e o grande sustentáculo da nossa gente.
O forró, antes de tudo, tem representação e,
no seu conteúdo, etnia.
NEON – O que o faz pensar assim?
Alcymar – Quando canto nas praças, nas ruas, vejo que
isso já está acontecendo, que o povo está dizendo
não às coisas chulas. Quando se canta Assum Preto (Humberto
Teixeira/Luiz Gonzaga, 1950) e Sala de Reboco (Luiz Gonzaga/José Marculino,
1964) a juventude vai à loucura. Isso, porque aquilo é a
identidade que estava sendo perdida e que foi reencontrada.
NEON – Na década de 1960 houve, igualmente, um reencontro
com essa identidade...
Alcymar – É, começou nos anos 60, depois adormeceu
um pouco. Deu uma levantada, voltou a adormecer e, agora, o avião
pegou um vôo, alto, inevitável, pois é uma tomada
de consciência de Brasil, dessa juventude, uma maioria neste
País. E quando a maioria resolve mudar, não se pode
segurar, e a maioria está tendo uma consciência de nordestinidade,
que me deixa feliz.
NEON – Naquela década da movimentação
estudantil, no final dos anos 60, que surgiu na Europa e chegou ao
Brasil, para a busca, também, desta identidade, em que ponto
você se encontrava?
Alcymar – Eu ainda era muito jovem (nasceu em 1953), tinha
poucos anos de vida. Mas eu já tinha uma consciência
de que todo nordestino tem como dever valorizar sua cultura, sua
gente, seu povo, já que sabemos que nação nenhuma
consegue algo no mundo, no contexto mundial, sem ter uma cultura
forte. E esta cultura não deve ser somente musical, não.
Cinematográfica, de pensamento. Escritores, poetas, músicos,
são o pensamento de um País. Nada ficará, pois
o tempo destrói tudo, menos a cultura. Ao invés de
destruir a cultura, o tempo a aperfeiçoa, redimensiona a cultura.
E esses representantes são, de uma certa forma, partes integrantes
do nosso povo. Quero dizer, da nossa cultura, da nossa informação.
Tenho certeza que essa gente terá um lugar na história
do Brasil por lutar tanto e por defender aquilo que lhe é peculiar,
que são os nossos valores musicais.
NEON – Do ponto de vista político, o que este movimento
de nordestinidade poderia representar para a região?
Alcymar – Muito, muito. Eu acho que o Nordeste, hoje, pela
gama de artistas que tem, pela gama de informações
que tem, pode reivindicar o que quiser. Quando tivermos um ministro
da Cultura nordestino, ou comprometido com a cultura do Nordeste,
o Brasil verá acontecer muita coisa. Todos os movimentos musicais,
culturais, teatrais, cinematográficos brasileiros não
existiriam sem os 40% ou 50% da cultura do Nordeste que estão
inseridos nesses movimentos.
Glauber Rocha é um exemplo. Quando fez cinema no Brasil foi
considerado um doido e, agora, é que estão começando
a assimilar a obra dele. Estamos na frente, estamos adiantados e
aproveito para uma mensagem ao futuro presidente da República,
que vai entrar daqui a alguns meses: nomeie para o ministério
da Cultura um homem do Nordeste, com raízes fincadas na alma
do seu povo, para que passemos a vender o que nunca soubemos, que
nosso potencial cultural.
Certo, vendemos soja, estamos vendendo avião, mas precisamos
vender a cultura, também. Jorge Amado fez o trabalho dele.
Seus livros estão editados em diversos idiomas, no mundo todo.Isso é bom
para nós, pois nos vende, no bom sentido, como povo, como
nação, identificável na cultura mundial. É isso
que nós precisamos fazer. Eu estou fazendo a minha parte e
espero que o governo faça a sua parte.
NEON – Este trabalho gera sucesso, mas você tem falado
com muita preocupação, sobre o sucesso, que dá e
que tira do artista. O que você faz para não ser envolvido?
Alcymar – Sucesso é uma coisa perigosa, é faca
de dois gumes. Se o artista for preparado, espiritualmente, o sucesso
dá a ele, cada vez mais, margem para produzir, para criar
e até recriar alguma coisa que já tenha feito. Dentro
da cultura cabe a recriação do próprio trabalho.
Mas, se o artista é imbecilizado, materialista, aí o
sucesso o engole, rápido. Do jeito que entrou, sai pela mesma
porta, de mãos abanando, não construiu, não
se dedicou, não teve coragem nem força para suportar
o peso do sucesso.
O sucesso, na minha concepção, é como uma via
de dois trilhos, onde o artista tem que andar com os dois pés:
um pé em um trilho, outro no outro. Não deve andar
em um trilho só, pois pode querer voltar na contramão
e fica sem nada. O sucesso é uma coisa boa, perigosa e, ao
mesmo tempo, algo que nos remonta à reflexão, à responsabilidade
e que deve ser traduzido em humildade...
NEON – Você experimenta esse sucesso, vai por esses trilhos,
não?
Alcymar – É, já estamos colhendo alguns frutos,
de sementes plantados anos atrás. São frutos bons,
para mim são frutos doces, pois o amargo é doce, se
doce nos parece.
NEON – E que faz você para colocar em prática
este pensamento, enfim, para conviver com o sucesso?
Alcymar – Falar comigo. Eu converso muito comigo, eu reflito.
Minha alma não descansa muito porque estou sempre perguntando
a ela: Você vai pra onde; olhe, não vá por aí,
que você vai me levar junto e eu vou sofrer com isso. Então,
a minha alma... eu estou sempre conversando com ela, estou sempre
muito bem com ela. Primeiro, porque ela não é minha,
ela pertence ao Cosmo, ao Universo, e por ela não ser minha,
tenho que conversar muito com ela, para que ela fique bem comigo.
A alma é uma senhora que caminha, independentemente do nosso
físico. Ela vai longe. Eu posso estar aqui, mas ela em Zurique,
em Milão, e eu vou estar lá, junto com ela. Então,
veja bem, com esta velocidade que o espírito possui, temos
de estar muito bem com ele, para não definhar nas drogas,
para não definhar no orgulho, não definhar na prepotência,
na falta de conhecimento.
A alma é, necessariamente, uma senhora que requer informações
diuturnamente, para que nosso físico fique bem, para que possa
suportar as agruras, as alegrias, que são frutos da espiritualidade.
Então, eu pergunto: Estou bem comigo, e respondo, estou.
NEON – Sua formação religiosa é...
Alcymar – Kardecista, criei-me na Igreja Católica, fiz
Primeira Comunhão, estudei dois anos em colégio de
padre, quando conheci a religiosidade mais profundamente, e estou
certo de que a religião é necessária. Aliás,
a fé é uma coisa necessária, a religião
não o é. A religião pode ser qualquer uma, mas
a fé, não, é única. A fé é uma
coisa que o ser humano tem de ter.
NEON – Fé em que, em quem?
Alcymar – Em Deus. Para mim Ele é um ser Maior. E, na
minha concepção, Ele está, lá, no Céu,
com um livro imenso, com milhões de páginas, onde Ele
anota a nossa vida.
Cada um de nós tem um registro e Deus, na sua sapiência,
na sua velocidade de pensamento, faz observações: Veja
você, eu lhe dei dinheiro, você não ajudou o próximo;
eu lhe dei uma voz bonita, você não canta para as pessoas;
eu lhe dei uma inteligência, você a usa para o mal. E,
quando Deus resolve, tira essa pessoa de cena. Deus, para mim, é o
superlativo da bondade. topo |