| Algumas entrevistas
e textos publicados no jornal A TARDE (Salvador/BA)
e na revista NEON (Salvador/BA)
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Dominguinhos
Fagner
Helena Meirelles
Os Paralamas do Sucesso
Zezé e Luciano
Targino Gondim
Alcymar Monteiro
Xangai
Djavan
Roberto Carlos, em 1997
Roberto Carlos, em 2000
Roberto Carlos, em 2004 - texto
  foto fernando costa.1986
 
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Dominguinhos, um sanfoneiro bom demais...
Revista Neon/Salvador - maio/1998

Salvador sempre foi um lugar especial para José Domingos de Moraes, 58 anos, mais conhecido como Dominguinhos ou, antes do sucesso, Neném do Acordeom. Não uma parada, antes de seguir viagem para o Sul do país, mas um lugar onde ele se sente “tocador de sanfona”. Aqui morou seu irmão Moraes, pianista, falecido há dois anos (1996), com quem Dominguinhos ensaiou os primeiros toques do fole em Garanhuns (PE), ainda menino, antes de seguir para o Rio de Janeiro, em 1954, com 13 anos de idade, e lá receber a ajuda do “pai postiço”, a forma carinhosa como ele se refere a Luiz Gonzaga.  O contato com a metrópole, novos amigos, novas cabeças e a convivência com expressivas figuras da Bossa-Nova, da Jovem Guarda, da Tropicália e das músicas de protesto e dos festivais, deram a Dominguinhos uma visão aberta sobre a música brasileira, sem preconceito e radicalismo. Buscando divulgar o compositor nordestino, a beleza do Nordeste, Dominguinhos tem gravado com cantores das mais derivadas tendências, entre os quais Zezé di Camargo e Luciano (Tenho sede, em 1994), Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Renato Teixeira, Fagner, Djavan e, mais recentemente, com Roberto Carlos. Em entrevista ao jornalista Ari Donato, para a NEON, no final de março, quando se preparava para concluir seu 44º disco, Dominguinhos falou sobre a música nordestina, as dificuldades enfrentadas para sua divulgação, em todas as regiões do país. Na Bahia, enfrenta o axé-music; em São Paulo, a música sertaneja; no Rio Grande do Sul, as músicas de influências latinas. Falou da perda de grandes compositores, como Humberto Teixeira e Zé Dantas, parceiros de Luiz Gonzaga, e enalteceu o surgimento de outros, como Nando Cordel, Jorge de Altino, Alcymar Monteiro, Petrúcio Amorim, Antônio Barros. Dominguinhos é, sem dúvida, um sanfoneiro bom demais... Sua simplicidade é excepcional, é como um baile de latada, singelo, sem beleza extrema, mas de um calor singular. Com o conhecimento de quem já dirigiu caminhão para o velho Lua, tocou na sua sanfona e ouviu conselhos dele, Dominguinhos fala sobre o baião, o xote, o xaxado, o arrasta-pé e o forró. Ouví-lo conversar, tocar nos 120 baixos da sua Giulietti, falar da pisada de Luiz Gonzaga, com o forte sotaque nordestino é um brinde.

NEON – Uma das características da música nordestina, incluindo aí o baião, o xaxado e o xote, foi fazer o papel de divulgador dos problemas enfrentados pelo povo do Nordeste, como a seca, a retirada, a fome. Tudo com musicalidade, humor e inteligência. Mas, as bandas modernas não têm sabido manter essa característica. Acabaram os problemas do nordestino ou os compositores estão distantes da realidade do País?
DOMINGUINHOS – Com o passar do tempo a música brasileira perdeu dois grandes compositores, letristas, poetas, nessa área de atrito do Nordeste, de um modo geral, que foram Humberto Teixeira e Zé Dantas, grandes parceiros de Luiz Gonzaga, da época da Asa Branca (1947) e Vozes da Seca (1953). Zé Dantas fez coisa muito bonita nesse sentido, como Humberto Teixeira também fez. Teve Lauro Maia, grande escritor, que trabalhou com Gonzaga. Foi o tempo do baião, criado por Gonzaga (no começo dos anos 1940), onde ele procurava mostrar esses problemas todos que via e que cantava, falando que os doutores (presidente, governador, prefeito, político) é que tinham de olhar para o Nordeste. Depois, veio uma nova safra de compositores, já com idéia um pouco diferente, falando também dos problemas nordestinos. Aí, chegou a época dos festivais, quando os cantores e compositores já tinham uma nova temática e grandes compositores pareceram, como Milton Nascimento, Gonzaguinha (filho de Luiz Gonzaga), Ivan Lins. Tanta gente importante saiu dos festivais. Então, os assuntos foram mudando. Nessa nova safra de compositores da temática nordestina tem, também, Anastácia, uma pernambucana que fez muita coisa comigo (Tenho sede, Só quero um xodó) e se reportava aos problemas do Nordeste. Então, eu acho que mudou um pouco a linguagem. É a mesma coisa do protesto, das coisas que Chico Buarque fazia, que Gil fazia, Geraldo Vandré e tantos outros artistas que reclamavam com uma certa força. Então, eu acho que houve uma mudança. Não sei se o povo deixou de se interessar, também, por aquelas coisas (protestos, questão social) ou a perseguição foi vindo e os autores não tiveram condições de continuar perderam, simplesmente, o interesse ou trataram de ganhar dinheiro. Houve alguma coisa, mudou o comportamento do compositor.
NEON – Você, que tem mantido contato com expressivos compositores nordestinos, além de ser um deles, conhece bem a beleza das letras de Zé Dantas, Luiz Gonzaga, Gordurinha, Anastácia, Catulo, Patativa, João do Vale e outros. De onde vêm tanta inspiração e conhecimento musical para elaborar obras lindas Cintura fina, Súplica cearense, A triste partida, Assum preto e O canto da ema”?
DOMINGUINHOS – Eu acho que vem um pouco do conhecimento, do sofrimento que eles encararam, de um modo geral. Acho que João do Vale foi um sofredor a vida toda. Ele conhecia certos problemas, como também Zé Dantas conhecia. Inclusive, no meu disco novo (saiu em abril) a esposa, a viúva de Zé Dantas, me deu uma letra dele, Sombra do imbuzeiro, que eu musiquei. Então eu acho que é mais ou menos por ai, a partir de um conhecimento que as pessoas tinham, vivendo em seu lugar, acumulando experiências de vida, de convivência, de sofrimento. Depois, todos foram para o Sul (São Paulo e Rio de Janeiro), a cabeça mudou, os amigos foram outros, as conversas foram outras e, eu sei, que o compositor foi enriquecendo um outro lado, o do cotidiano de todo mundo.
NEON – O processo de criação desenvolvido por um compositor como você depende de momento, situação emocional, situação financeira, de convivência na família. Mas, isso não acaba, não pode secar ou é igual ao Açude de Orós, com bastante água?
DOMINGUINHOS – Não, acho que não. Eu, por exemplo, tenho feito algumas músicas com Fausto Nilo (Depois da derradeira, Casa, comida e paixão), com Climério (Eu sou do mundo, Oito baixos) e outros. De vez em quando, eu dou um tema a um deles, quando quero falar de um assunto assim, como por exemplo, a homenagem a Luiz Gonzaga. Agora mesmo, gravei uma, Prece a Luiz, do Climério, onde ele fez uma história, narrou para mim as poesias. Eu acho que o autor nunca deixa de... A fonte nunca seca, não. Ele tem sempre a força da mente ajudando ele a escrever muita coisa bonita.
NEON – A música nordestina sempre foi a preferida do grande público, principalmente das classes mais castigadas socialmente, talvez por mostrar seus problemas. Em uma época mais recente, com a participação de compositores como você, Gonzaguinha e outros, chegou aos intelectuais. Você que anda por aí, viajando, cantando, que visão tem da música nordestina atual, não digo o forró de época de São João, mas a música de raiz, ela continua com a mesma força, o mesmo valor?
DOMINGUINHOS – Apesar de seus derivados, artisticamente falando, muitas bandas incrementando música nordestina, o forró, o baião, essas coisas todas, o momento é bom. Estou vendo que a gente está tendo mais oportunidade de mostrar o trabalho. O Sul do país está acolhendo melhor, apesar de Luiz Gonzaga ter vivido a vida toda no Rio de Janeiro, ele chegou lá rapazinho (com 17 anos), acredito eu que nesse momento agora há uma melhor unificação de idéias do povo nordestino com o do sul. Estão viajando mais, estão divagando mais no que vê, nas belezas nordestinas, que não é só miséria; nós temos o Nordeste também muito rico, muitas coisas. Então isso tudo faz com que haja um nível melhor e as pessoas passam também a gostar do que se faz no norte e nordeste do país.
NEON – Quando Luiz foi para o Sul, levou o baião e a música nordestina, de raiz, saiu de lá para todo o pais. Mas, na verdade, houve uma generalização quanto à música que identifica este ritmo e, basta alguém puxar o fole, bater um triângulo, um zabumba, que as pessoas falam em forró. Xaxado, baião, arrasta-pé e xote podem ser generalizados como forró. Como é, mesmo, cada ritmo, como se diferenciar um do outro?
DOMINGUINHOS – Um xote é um xote, o forró é outro ritmo, assim como o baião é outro ritmo. Todos têm uma batida diferente e o arrasta-pé, por exemplo, é outra batida. O xaxado é outra batida, o coco é outro, o rojão também.
NEON – Como definir, como identificar cada um deles, musicalmente?
DOMINGUINHOS – Você define assim: o baião com uma batida mais, vamos dizer numa linguagem musical, mais quadrada (aí, Dominguinhos cantarola e ritma Que nem jiló). O forró já uma batidinha a mais, que dá um swing maior (ele cantarola Isso aqui tá bom demais) que dá uma diferença, permite algumas variações, e, jazzisticamente fica melhor para se tocar, inclusive, do que o baião. E aí, o arrasta-pé é outro (Dominguinhos cantarola Que falta eu sinto de um bem/que falta me faz um xodó), o xote é um balançado (Todo tempo quanto houver pra mim é pouco/pra dançar com meu benzinho numa sala de rebouco). As diferenças são enormes, mas houve essa generalização e aí, pede-se para tocar um forró, toca-se um arrasta-pé e mistura baião, xote, forró e não é assim. A dança é diferente.
NEON - Entre esses compositores mais identificados com a tradicional música nordestina, depois do Gordurinha, estão outros baianos, alguns que você conhece, como Quininho de Valente, Aldemário Coelho, que já tem um trabalho bastante conhecido, Xangai, Edil Pacheco. Que avaliação você faz desses compositores, que enfrentam, agora, movimentos musicais como o axé-­music e o pagode do bum-bum para divulgar seus trabalhos?
DOMINGUINHOS
– Quininho é um velho conhecido e luta com muita dificuldade para divulgação do trabalho dele. É um artista popular, da música nordestina, que faz seu próprio disco (este ano sai o 9º disco) com dificuldade, paga tudo, viaja para aqui, para ver se divulga. É um valor, é uma pessoa que está lutando pela música nordestina, então, eu acho que, assim como Quininho, tem as várias figuras que você citou que tiveram muitas dificuldades para mostrar algumas coisa. Gordurinha, mesmo, era mais humorista, não era tanto compositor. Era um humorista extraordinário. Eu o conheci e o acompanhei na Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, aonde cheguei garoto. Dentre outras coisas, é dele Súplica cearense (aí, Dominguinhos inicia: Oh Deus, perdoa esse pobre coitado/que de joelho rezou um bocado/pedindo pra chuva cair sem parar), que Gonzaga gravou, eu gravei também.
NEON – Esses compositores e intérpretes baianos enfrentado dificuldades muito grandes, diante dessa onda de pagodes aforrozados, se é que podemos dizer assim, para colocar seus discos nos programas musicais das rádios e falam em discriminação, até mesmo no período junino. Você tem encontrado dificuldades dessa natureza, para divulgar seu trabalho?
DOMINGUINHOS – É como nós em ralação à música caipira em São Paulo. Quando a gente chega assim, no começo, é difícil, encontramos dificuldades. Eu não tenho dificuldades se eu for divulgar. Se eu for... Chego e todo mundo abre as portas, não há o menor problema, todo meu disco e acabou-se. mas ele não entra na produção do programa.
NEON – As dificuldades que os compositores e intérpretes baianos da música nordestina enfrentam, diante da axé-music e desse novo pagode são, então, iguais às que outros artistas enfrentam, por exemplo, em São Paulo, com a música sertaneja?
DOMINGUINHOS – Exatamente. Por exemplo, o artista chega a um programa de televisão sertanejo, em São Paulo, ele vê 99% de caipiras cantando e, talvez, 1% nordestino ou um sambista. Eu viajei outra ocasião, mais ou menos mil quilômetros, e peguei aquela área toda de Brasília, aquele mundo todo, de Goiás, em direção a Belém do Pará, sem escutar nada a não ser a música caipira. Foi assim, de rádio a rádio, jamais, nem por longe, tocava Luiz Gonzaga, para mostrar uma coisa assim mais clássica da música nordestina. Existe essa separação. No Rio Grande do Sul, por exemplo, eles adotam muito o xote, o vanerão e tocam aquelas coisas assim, ligadas à Argentina, Uruguai, como as guarânias. 
NEON – Também há queixas contra o modo de divulgação das músicas nesses programas, cujos apresentadores nem sempre citam o nome dos autores das letras ou das músicas. Na verdade, há uma legislação (em Salvador, de origem da Câmara Municipal) que disciplina essa questão, nem sempre obedecida. Do ponto de vista comercial isso também prejudica o artista ou é mais uma questão de ordem técnica. Como você avalia esta situação?
DOMINGUINHOS
– Prejudica bastante, pois o artista não é citado e o povo acaba não conhecendo a obra dele como dele e às vezes é obrigado a gravar coisas que alguns artistas conhecidos já gravaram para que conseguir dizer que é dele. Existe essa coisa e eu acho que a culpa é dos diretores das rádios. É uma coisa simples, é uma falta de atenção dos programadores, só isso, porque não custa. Vamos ouvir com tal cantor, tal música. Mas, de quem ? Não custa dizer o nome do autor, é falta de atenção.
NEON – Depois de gravar com Chico Buarque, Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Renato Teixeira e tantos outros artistas, você participou do último disco de Roberto Carlos, lançado em dezembro do ano passado, mais especialmente na faixa “O baile na fazenda”, um arrasta-pé dele e de Erasmo Carlos. O Roberto é tido como um dos artistas mais perfeccionistas na hora de gravar e, você, exímio sanfoneiro, faz variações que certamente não estavam na pauta. Isso não atrapalhou o trabalho no final ?
DOMINGUINHOS – Nós passamos umas três horas dentro do estúdio, dele mesmo, num trabalho muito bom. Roberto sabe exatamente o que quer. Só tem algumas dúvidas em relação à tonalidade. Ele gravou aquela música em ré maior, mas poderia mudar para mi ou baixar ou subir um tom ou meio. Ele disse pra mim: “Ó Domingos, eu não sei se vai ficar assim (no ré)”. Mas, o maestro (Eduardo Lages) já acompanha o trabalho dele há muitos anos já sabe como ele é, com essas manias. Mas, devido ao andamento da música, a forma como eu já peguei ela, já feita, gravada, a base, só para botar o acordeom. Não tinha outras coisas, como voz, mas a base estava feita. Então, a música foi acompanhada com toda simplicidade, que não cabe certas coisas, que envolve variações. A não ser no momento citado (na madrugada o sanfoneiro toca forte e o baile esquenta.../o sol esquenta e o sanfoneiro continua...). Ai eu dou uma puxadinha para mostrar que o sanfoneiro está vivo. Mas o resto é tudo bê-á-bá, feito dentro da simplicidade que a própria música pede.
NEON – Vocês certamente conversaram, durante o período de gravação da música. Tocaram na possibilidade de um gravar uma composição do outro?
DOMINGUINHOS – Eu já mandei uma canção uma vez pra o Roberto. Ele é amigo de meu filho (Mauro José Silva Moraes, que é técnico da Som Livre e Roberto gravava muito com ele. Agora não, que Roberto já tem seu estúdio de gravação (Amigo Records). Então eu entreguei ao meu filho, que fez uma ponte. Mas, eu já tinha feito, também, um disco em homenagem a Luiz Gonzaga (Dominguinhos e convidados cantam Luiz Gonzaga, pela Velas/97), que teve a participação de muitos cantores, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Fagner, João Bosco, Genival Lacerda, Djavan, Alcymar Monteiro, Sérgio Reis, Daniela Mercury, Quinteto Violado, Ivan Lins, Marinês, Jane Duboc e eu tentei que ele (Roberto) cantasse Asa branca (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) comigo, mas não houve um... não consegui falar com ele (Asa branca foi gravada só no solo de acordeom de Dominguinhos)
NEON
– Não teria sido em razão de questões contratuais com a gravadora, a Sony?
DOMINGUINHOS – Não, mas ele decide, Roberto decide. Ele mandou uns recados, assim truncados. Uma vez deram-me o telefone dele, mas eu não quis ligar, porque ele não mandou me dar o telefone, pois se quisesse, teria dado pessoalmente pois quando eu estava gravando uma música no estúdio em que meu filho trabalha e eu estive lá, gravando um disco de Genival Lacerda, e ele estava lá e ficamos conversando, relembrando nossos tempos. Eu conheci Roberto na época de 60 (quando eu cheguei no Rio em 54) de forma que conversamos e ele disse que queria gravar um disco com música americana, com orquestra, uma coisa muito bonita e que ele iria me chamar para tocar em uma faixa. Eu disse que teria o maior prazer e disse, também: aproveite e faça logo, porque você canta muito bem e tem que tirar proveito dessas coisas e você tem condições para isso. Nesse último encontro (na gravação do ultimo disco de Roberto) eu disse a ele que qualquer hora iria chamá-lo para cantar comigo e ele disse que iria com todo prazer. Roberto é uma pessoa que tem muita dignidade, pessoa correta, distinta, que sabe... entendeu... 
NEON - Você disse que conheceu Roberto Carlos em 60. Alguns anos depois teve início o movimento musical liderado por ele, a Jovem Guarda. Neste período da Jovem Guarda, da guitarra elétrica, o fazia você, o que ouvia você, o que cantava você?
DOMINGUINHOS – Eu tocava no Dancing Brasil, que era uma escola de dança, e Dancing da Avenida, todos na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, ali quase na Cinelândia. E eu tocava em boate e ainda acompanhava todos os nordestinos, da CBS e outras gravadoras, como o Trio Nordestino, Marinês, Abdias, que era o produtor, gravava também, Jackson do Pandeiro, Coronel Ludugero, Osvaldo Oliveira, Arlindo Julião. Todos esses artistas era eu quem acompanhava, com o acordeom, fazendo toda a parte nordestina era eu que fazia, já nessa época. Então, eu me desdobrava entre dancing à noite. Formei um conjunto de baile, toquei em regional, fazia muita coisa e toquei, também, muita música da Jovem Guarda, mas depois a Jovem Guarda puxou o órgão (instrumento musical de fole com teclado) da igreja e passou a ter uma atuação maior nos conjuntos. Era a época dos Beatles, em 1965...
NEON – Nesta época a imprensa, as revistas de música e de televisão, divulgou que os Beatles iriam gravar Asa branca, você se recorda?
DOMINGUINHOS – Sim. Gonzaga deu um pulo (e Dominguinhos ri gostosamente, como se recordasse da alegria do seu mestre Luiz Gonzaga na época). Ele achou foi bom... (aqui, Dominguinhos busca um estribilho, da canção de Gonzaga, Sá Marica Parteira).
NEON – Destaque alguns compositores e intérpretes atuais que, na sua opinião, estejam mantendo a música em nordestina em destaque E das suas composições, quais as que mais agradam a você, como ouvinte, não como autor?
DOMINGUINHOS – Da área nordestina, Nando Cordel (De volta pro aconchego, Isso aqui tá bom demais, No bem bom), excelente compositor, além de parceiro, Jorge de Altino, excelente valor da música e que também escreve muito bem, e Assizão. Tem outros valores de grande porte, como Alcymar Monteiro, um lutador muito grande pelas coisas do Nordeste, Petrúcio Amorim, um excelente compositor, Acyole Neto, Maciel Melo, além desses, temos os veteranos, que continuam em atividade, que são João Silva (Nem me deu bola, Duvide-o-dó) e Antônio Barros e sua mulher Cecéu (Bate-bate coração, Esse Brasil é meu, Como eu sou, O pavio e o lampião), dos quais já gravei muitas músicas e outros cantores também, como Trio Nordestino, Elba Ramalho. Respondendo à outra pergunta, do meu trabalho há algumas coisas que eu... Praticamente eu não compraria as coisas de forró, mas as canções, como Quem me levará sou eu, com meu parceiro Manduca, De volta pro aconchego e Gostoso demais, que fiz com Nando Cordel. Essas são coisas que eu fosse se um comprador normal de disco, eu levaria.
NEON
– Você gravou seu primeiro disco quando?
DOMINGUINHOS – Foi Pedro Sertanejo, o pai de Osvaldinho, que me lançou em disco. De simples afinador de sanfona, Pedro Sertanejo fundou a gravadora Cantagalo e passou a ser um baluarte na aquisição de valores que não tinham nenhum elo com gravadoras, que não tinham oportunidade. Meu primeiro disco, “Fim de festa”, eu gravei em 1964, com músicas de vários autores e alguns solos meus, mas, minha primeira composição eu fiz com Anastácia (Só quero um xodó) e foi gravada por Marinês, nos anos 70.
NEON – Sua sanfona é uma Giulietti, de 120 baixos. Para que tantos baixos. Você toca em todos? O velho Januário (pai de Luiz Gonzaga) não precisava de tantos...
DOMINGUINHOS – É, é muita coisa, mas eu toco em todos. O velho Januário tocava na pé de bode, de oito baixos. Mas tem tocador de oito baixos muito bom. O Hermeto Pascoal toca um oito baixos danado...

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Fagner - Canteiros, sem problemas
A TARDE, 23 de março de 2000- Caderno 2

Depois de quase dois anos sem gravar, Fagner surge com o CD duplo Fagner ao Vivo (Epic/Sony), em que reúne canções que marcaram os 27 anos da sua carreira artística, iniciada em 1973, com o elepê Manera Frufru Manera, pela Philips. “Este é um disco que comemora meus 50 anos de idade, por isso, reuni minhas músicas mais famosas”, disse Fagner, na última terça-feira (março de 2000), em São Paulo, durante entrevista (março 2000) para o lançamento do álbum duplo.
O CD resgata pérolas como Canteiros, Asa Partida e Mucuripe, cada qual com seus arranjos originais, o que é uma novidade em regravações e, principalmente, tiradas de shows ao vivo. “Busquei fazer tudo igual, com os mesmos instrumentos e vocais, principalmente Canteiros, que é uma música que os fãs não puderam ouvir por tanto tempo em disco”, explica. Foi gravado dia 28 de janeiro passado, no Centro Cultural Dragão do Mar, na Praia de Iracema, em Fortaleza.
Segundo o cantor, a gravação foi acompanhado por um público total de 40 mil pessoas, entre as que estavam no interior do centro cultural e as que ficaram do lado de fora. São 22 canções, mas duas delas saíram de estúdio (Último Trem, de Fagner e Fausto Nilo, e Chama Quente, poema musicado de Florbela Espanca). A razão, argumenta Fagner, é que música inédita, para disco, deve ser gravada em estúdio. “É mais seguro, pois o público não conhece e tudo ainda é começo”, argumentou.
Durante o lançamento do CD, Fagner ressaltou a importância da reunião dessas canções no disco, desde o início de sua carreira, em 1972, quando gravou Mucuripe (dele e Belchior), num dos lados do segundo compacto simples da série Disco de Bolso, iniciativa do Pasquim (no outro lado está Caetano Veloso, com A Volta da Asa Branca). “O público que me acompanha desde o começo vai rever canções que estavam esquecidas; o pessoal dos anos 80 para cá vai tomar conhecimento do meu trabalho”, disse ele, destacando que somente pôde fazer esta reunião com sua volta para a Sony, gravadora que herdou o acervo da CBS, onde Fagner gravou, entre 1976 e 1985.
“ Onde eu estava, na BMG, seria difícil, pois teria que reunir documentos que permitissem a gravação de cada música”, disse, deixando transparecer o descontentamento com a ex-gravadora, onde ficou, de 1986 até 1988, ano em que fez o álbum Amigos e Canções. “O fato de ter voltado para a CBS, para a Sony, vai me permitir recuperar repertório mais antigo, uma parte da minha carreira”, declarou, acrescentando que voltou para a Sony para ficar ao lado da sua obra e fazer a gravação desse CD ao vivo, com as músicas mais significativa do seu trabalho.
Dentre essas canções, está Canteiros, que Fagner fez, a partir dos versos do poema Marcha, de Cecília Meirelles, e que esteve impedida de ser regravada ou reeditada, em razão de uma ação movida pelas filhas da poetisa (Maria Fernanda, Maria Elvira e Maria Matilde), “numa briga muita longa, que não interessava a ninguém, nem a mim nem à família de Cecília Meirelles”, relembrou Fagner. Ele acredita que se a poetisa estivesse viva, “esta confusão jamais teria acontecido”.
“ Tudo foi no começo da minha carreira, não tinha experiência, fiz sem má intenção, sem maldade, entendendo que estava fazendo um grande negócio, embelezando os versos de Cecília Meirelles. Quando disse isso, a família da poetisa não entendeu, e tudo começou. Mas, sem tirar o valor excepcional de Marcha, a canção Canteiros projetou o poema e eu deveria cobrar a partir dos livros vendidos depois de Canteiros”, arrematou o cantor, com franqueza, assegurando que pouca coisa é de autoria da poetisa. “A música é minha e a maior parte dos versos, também. Só utilizei os oito primeiros da Cecília”, defendeu-se.
Na verdade, contou Fagner, desde menino, na cidade interiorana, gostava de ler poemas e de passar as horas musicando-os. “Isso é uma mania minha, e muitos dos meus parceiros, que estão entre os melhores do Brasil, muitas vezes, reclamam do fato de eu pôr músicas em poemas, quando poderíamos compor. Mas isso é uma coisa natural minha, com a qual eu me identifico”, disse Fagner. Ele já musicou poemas de Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Florbela Espanca e um outro, Motivo, de Cecília Meirelles, também proibido de regravação e que não entrou neste CD.
A liberação de Canteiros foi obtida pela Sony Music, que assinou acordo com as herdeiras de Cecília Meirelles. Mas o acordo não permite uma reprensagem do elepê Manera Frufru Manera, no qual, originalmente, está Motivo. No novo álbum, Canteiros abre o disco número 2 e já traz o crédito a Cecília Meirelles, o que não ocorreu em 1973, dando origem a uma ação por danos materiais, por violação de direitos autorais, em 1979, com apreensão de cerca de 14 mil elepês e 3 mil fitas cassete, segundo os jornais da época.

FAIXA A FAIXA - Sinal Fechado, Conflito, Jura Secreta, Asa Partida, Noturno, Mucuripe, Guerreiro Menino, Fanatismo, Revelação, Deslizes, Borbulha de Amor, Canteiros, Espumas ao Vento, Ai que Saudades D’ocê, Súplica Cearense, Lembrança de um beijo, Pot pourri (A Vida do Viajante/Riacho do Navio), Cebola Cortada, Último Pau-de-Arara, Pedras que Cantam, O último Trem e Chama Quente.

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Helena Meirelles, uma violeira real
Revista Neon/Salvador - Abril de 1999

No final de 1993, o país quedava diante do Plano Real, o programa de estabilização econômica anunciado pelo então ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso, sob aval do presidente Itamar Franco, e a metade da população, eufórica, ainda festejava a preservação do presidencialismo, que fora assegurado nas urnas, em abril. Confiando no real, que media forças com o dólar numa queda-de-braço, o brasileiro tinha vistas e ouvidos voltados para produtos importados e não escutava o som das cordas da viola de uma sul-mato-grossense, de 69 anos, que estava inebriando roqueiros e jazzistas nova-iorquinos.
Era Helena Meirelles, que tivera alguns de seus solos de viola enviados por um sobrinho, em fita cassete, para a revista norte-americana Guitar Player, bíblia dos guitarristas em todo o mundo. Na edição de novembro de 93, a revista colocou a violeira entre os melhores instrumentistas do mês e executou duas de suas músicas (Guaxo e Araponga, incluídas, depois, no primeiro CD, em 1994) no serviço de audição por telefone mantido mensalmente para seus ouvintes, em Nova Iorque. Por conta disso, Helena Meirelles recebeu o prêmio Spotlight Artist (Revelação) e foi convidada a se apresentar nos Estados Unidos. Uma crise pulmonar não a deixou ir.
Os críticos da revista norte-americana mostraram-se entusiasmados com a técnica apurada e a criatividade de uma violeira que não freqüentara a escola, mas desenvolvera um estilo próprio, mesmo sem saber ler ou escrever. A preocupação de Helena Meirelles, já com 75 anos, sempre foi o preciosismo. Ela não se expressa exatamente assim; diz, no seu linguajar sertanejo, que o cuidado é com o toque, com a melodia. "Minha música fica na cabeça, não sei ler nem escrever, mas sei quando toco bem ou toco mal", comenta, com a autoridade de quem já gravou três discos no Brasil.
Ela se preocupa muito mais com essa feição estilística do que com a bronquite crônica que a persegue desde os tempos vividos nas margens do Rio Pardo, em Campo Grande, no atual estado do Mato Grosso do Sul, onde nasceu, a agosto de 1924. "A tosse não me deixa, um dia amanheço bem; outro, ela agarra na minha garganta e passo horas tossindo. Os médicos dizem que não tenho nada, assim vou vivendo, até quando Deus quiser", desconversa a violeira, quando perguntada sobre seu estado de saúde, que esteve bastante abalado, até se transferir para São Paulo e sair do anonimato. "O que me incomoda é a aporrinhação que temos de enfrentar na vida", confessa.
Entre os aborrecimentos, atualmente, está a falta de um baixista para acompanhá-la nos treinos, "ensaios", como ela diz, das 16 novas músicas que compôs para o próximo CD, o quarto de uma carreira iniciada em 1994. "Tenho as músicas na memória e preciso ensaiar elas, para não esquecer, pois não sei fazer essas coisas de partitura e pauta, então treino de duas a três vezes (horas) por dia", explica a violeira, lamentando não está contando com todos seus músicos. Apenas o filho, Francisco da Costa Machado, que sempre a acompanhou ao violão, tem participado das sessões, em sua casa, na cidade de Presidente Epitácio, interior de São Paulo.
Nos discos já gravados, Helena Meirelles contou com três baixistas. No primeiro, em 1994, foi seu sobrinho Milton Araújo; no segundo, em 1996, Pedrão, e, no último, em 1998, um outro parente, Gesílio Pereira. "O toque do baixo é importante na minha música, pois dá mais vida, mais beleza, realça o ritmo", disse a violeira, pelo telefone, em entrevista para Neon. Ela comentou que fez alguns shows em São Paulo, acompanhada apenas de violão, que não gostou do resultado e não pretende dispensar o baixo. "Vou reunir meus músicos para treinar e preparar o novo disco, para quando o pessoal da Gravadora Eldorado achar que é hora", completou.
A apuração da violeira é extrema. Durante a sessão de gravação do CD Flor da Guavira, em 1996, o baixista Pedrão teve uma corda do instrumento partida no final da execução da rancheira Limpa Banco. "Foi na sexta faixa, ele tocou com uma corda a menos, a única falha no disco", disse ela, na ocasião, sem levar em conta o violão acústico que preencheu bem os graves no início dos compassos. Seu vocabulário regional, carregado, não a impede de demonstrar o conhecimento que tem da música de raiz, popular, de onde extrai seqüências brilhantes, próprias e apuradas. "Eu aprendi a tocar com os peões e a vaqueirama das comitivas (grupo de trabalhadores) boiadeiras, no Mato Grosso", conta Helena.
Isso, nos anos 30, quando a divisão do estado de Mato Grosso não era imaginado pelos bravios boiadeiros da região (ocorreu em 1979). "Lembro de meu tio, Leôncio Meirelles, que tocava polca, guarânia e rasqueado (rasgado) e do samba, cantado por uns baianos que chegaram lá em Porto 15 (embarcadouro de gado nas margens do Rio Paraná, divisa com São Paulo) para trabalhar como meeiros na plantação de capim, ficaram na casa de meus pais e me ensinaram a cantar e a dançar", disse a violeira, comentando que a partir daí jamais deixou de tocar samba. No último disco, Raiz Pantaneira gravou Guiomar, de Haroldo Lobo e Wilson Baptista, ao lado de Sérgio Reis. Agora, para o quarto CD, já tem pronto "Samba de uma nota", única das 16 composições com título definido.
Não foi o samba que projetou Helena Meirelles nos Estados Unidos e, depois, revelou-a ao Brasil. Foram os números instrumentais, já do domínio público, Guaxo e Araponga, onde ela imita, solando na viola caipira e no violão dinâmico (ambos de som metálico, igual ao dos violões dos bluesmen americanos) o canto das duas aves, e com os quais recebeu o prêmio Spotlight Artist da Guitar Player, em novembro de 1993, e teve sua palheta incluída entre as 100 mais da revista, juntando-se às de roqueiros, jazzistas e bluesmen como Eric Clapton, George Benson, Keith Richards. No ano seguinte, a Eldorado lançou seu primeiro disco, em solos de viola.
Antes de gravar o primeiro disco, com 70 anos, Helena Meirelles era desconhecida do país e seus parentes davam-na como falecida, até ela reaparecer, em São Paulo, em 1986. Dona Helena, como é tratada pelos que a cercam, não esconde sua história de violeira, vivida entre o som do berrante, o guizo do cargueiro (guia de besta de carga), a poeira da boiada, o grito da peonada; os dias de vida como lavadeira, benzedeira, cozinheira e parteira (fez o parto de seus 11 filhos) e as noites de cantorias e de toques nos bordéis, em troca de pouso, comida e bebida. "Já bebi muito, mais de um litro de cachaça por dia, mas, graças a Deus, me afastei disso e quero gravar até os 90 anos de idade e continuar com seus shows".
Helena Meirelles esteve em Salvador duas vezes (em 1995, no Teatro Castro Alves, e em 1998, em uma apresentação no Pelourinho). "Guardo uma lembrança muito bonita do Pelourinho, onde teve uma senhora, já com idade perto da minha, que dançou e cantou com um copo de pinga na mão, muito alegre, e isso me deixou feliz e com vontade de voltar à Bahia, a Salvador", lembrou, acrescentando: "Gosto dos baianos e eles gostam de mim e da minha música, tanto os da Bahia como os que vivem em São Paulo e vão ver meu show. Os baianos são alegres e gostam de música", diz Helena, que revela uma outra alegria: A casa própria, que nunca teve ao longo de toda sua vida. "Graças a Deus, já tenho minha casinha. Há muito tempo que lutava por isso e, agora mesmo, estou falando (quando concedia a entrevista) dela, em Presidente Epitácio, que o João Lara (diretor da Gravadora Eldorado) me deu. Fica no interior do estado de São Paulo, onde o clima é bom para mim", concluiu a violeira.
Helena Meirelles faleceu no dia 29 de setembro de 2005, aos 81 anos, vítima de parada cardiorrespiratória.

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Os Paralamas do Sucesso - Brasileiro e universal
TARDE, 4 de abril de 1998 - Caderno 2

A voz desprotegida e vulnerável de Herbert Viana, como escreveu Tom Zé, no encarte de Hey Na Na, o novo disco de Os Paralamas do Sucesso, lançado quinta-feira última, 4 (abril de 1998), no Rio de Janeiro, rompe os compassos musicais e dá à banda uma posição invejável de estar perto do que poderia ser denominado de universalização do rock brasileiro.
O disco, da EMI, é o 12º da banda e foi lançado para toda a América Latina no Rock in Rio Café, durante um show, onde os Paralamas mostraram 15 músicas, quatro das quais do novo disco. Herbert Viana definiu o trabalho da banda como sendo "um disco com dados de experiência que terá de ser adaptada para shows ao vivo". E foi o que fizeram na apresentação de quinta-feira, com a retirada das guitarras para um concerto acústico. A música Depois da Queda, o Coice, de Herbert Viana, por exemplo, teve as guitarras elétricas substituídas por instrumentos de sopro. Foi uma adaptação expressiva, mas que não retirou do rock a beleza e a forte atmosfera universalizante da canção, a segunda do disco. 
" A virtude está na atmosfera, na vibração da canção, no que a gravação poderá passar", definiu Herbert Viana, durante entrevista de lançamento do disco, ao falar da nova experiência do grupo na busca da experimentação musical. Os efeitos foram aplaudidos no palco do Rock in Rio Café pelo escocês David Byrne, que está no Rio para um show e foi ver o lançamento de Hey Na Na.
O nome do disco foi tirado da canção Depois da Queda, o Coice. Eles extraíram o título dos versos "Já não se vê nem bem nem mal, and all there is to say: Hey na, na, na". Bem poderia ter sido "do, do, do", argumentou Herbert Viana, alegando "incapacidade da banda de pensar em um título", em tom de pilhéria, como disseram os Beatles, em O-bla-di O-bla-da, quando também não deram uma razão lógica para o título da canção.
Mas o disco está além das brincadeiras dos três mosqueteiros. São 10 canções, todas de Herbert Viana, das quais três ele divide com Bi Ribeiro, Chico Science e Thedy Correa; uma outra, de Charles Garcia, ele versou para o português. Hey Na Na é produzido por Chico Neves, que atua como um quarto Paralama(s), na opinião de Bi Ribeiro, e conta com a participação de Dado Villa-Lobos, Marisa Monte (voz em O Amor Não Sabe Esperar) e Jorge Mautner (voz e violino em Scream Poetry).
No disco, disse Herbert Viana, o que há são pequenos elementos tocados, avanços que transformaram o som em outra coisa, outros elementos rítmicos e que terminaram por dar uma concepção sonora de arranjo muito boa. "Não estamos fazendo nada de novo, cada um faz o que gosta, estamos descobrindo coisas e não temos a dimensão de que estaríamos fazendo um rock universalizado", disse o vocalista do grupo, endossado pelo baixista Bi Ribeiro: "Quem tem procurado buscar e definir ritmos, medalha para ele".
Além do rock Depois da Queda, o Coice, as canções O Trem da Juventude e Ela Disse Adeus mostram um Paralamas bem diferente do período inicial, entre 1983 e 1991, que os integrantes mesmo chamam de "básico", e da experiente etapa de Severino, em 1994. O novo disco é uma volta, mas não ao começo. "É um trabalho totalmente solto", definiu Herbert Viana, sem as limitações tradicionais, como engenheiros de som e assistentes, horários fixos para gravar. "Não tem nada disso nesse disco, é um trabalho completamente solto", afirmou Herbert Viana.
Na verdade, para o vocalista e líder da banda, a distância entre o músico e a música é muito menor quando ele trabalha dessa maneira. "É uma forma nobre de trabalho", definiu ele, na entrevista, lamentando que o disco Severino, que vendeu apenas 70 mil cópias, o mais baixo número da banda, não tenha contado com esse tipo de trabalho. "Poderia ter dado certo, se tivesse a produção certa, o apoio certo", disse, consciente de que Hey Na Na está com esta "atmosfera correta". O disco, voltou a definir, sai com duas pequenas variedades consideradas importantes pela banda: volta com as canções rápidas e explora a inflexão da voz, o que, no entender de Herbert Viana, vinha sendo negligenciado pelo grupo nos últimos trabalhos.
" Em Hey Na Na, encontramos mais espaço para tocar guitarras e estou entusiasmado com esse instrumento, que é o que sei tocar", garantiu Herbert Viana, informando que, nos últimos dois anos, vem se empenhando "para recuperar meu prazer de tocar guitarra". Isso ele conseguiu mostrar, tanto nas faixas com guitarra no novo disco quanto no show acústico de apresentação do CD, quando mostrou uma evolução visível nos último anos, executando O Trem da Juventude e Brasília 5:31 de forma tão melódica e lírica que fizeram fazer valer seus versos em Por Sempre Andar, que abre o disco: "... sem nunca parar, pequenas coisas vão ficando para trás".
Não é à toa que Hey Na Na fecha com Santorini Blues, que apareceu no disco solo com o mesmo nome, em 1997. Depois desse disco, Herbert Viana disse que "tocar é dar vazão a um lado que é quase violento da personalidade". Com essa visão da música, a banda Paralamas do Sucesso está há 16 anos encantando com suas canções de rock, ska e reggae, já tendo vendido 4 milhões de cópias ao longo desse tempo. Desses discos, o que mais vendeu foi Vamo Batê Lata, em 1996, que chegou a 900 mil cópias, seguido de Nove Luas, em 1997, com 600 mil.

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Zezé di Camargo e Luciano - Diversidade sertaneja
A TARDE - 9 de setembro de 1998 - Caderno 2

O oitavo CD de Zezé di Camargo e Luciano (Colúmbia/Sony), lançado dia 1º (setembro de 1998), em São Paulo, teve alterada a fórmula do estilo romântico que a dupla vinha utilizando desde que surgiu, em 1991, com É o amor e Eu te amo, versão de Roberto Carlos para And I love her, de John Lennon e Paul McCartney. Neste novo disco, que sai com 1,7 mil de cópias vendidas, três das 17 faixas enfocam temas sociais e uma, puxada ao axé-music, foge completamente do padrão que tem caracterizado a dupla. As demais vão de canções e baladas ao bolero.
Mas os dois irmãos não encaram essa diversificação como mudanças. Zezé di Camargo, mais incisivo, diz que é uma preocupação da dupla não ter apenas um segmento, apenas uma linha de trabalho. "Não dá para ficar só numa linha, é preciso ir mais adiante, universalizar, buscar os segmentos", diz Zezé, para justificar as letras de Meu País, marcadamente social, e Sabor de Pecado, despretensiosamente em ritmo axé e, propositadamente, com vistas ao próximo Carnaval. Em 1994, no quarto CD, a dupla interessou-se pela questão social e deu um grito de alerta, na defesa do menor abandonado, com a faixa Bandido com razão. Mas, a maioria das músicas gravadas por Zezé di Camargo e Luciano estão envolvidas em canções e baladas sertanejas, embora eles não aceitem esse rótulo, por se considerarem artistas populares.
" Nosso trabalho está forte e nos dá condições de nos colocarmos como artistas brasileiros, artistas da MPB, não sentido elitista, mas no sentido popular da coisa", argumenta Zezé, apresentando como respaldo a marca dos 12 milhões de discos que a dupla já vendidos em oito anos de carreira. Somente em junho passado, o sétimo CD de Zezé di Camargo e Luciano (gravado em 1997) vendeu 70 mil cópias, perdendo, no período, apenas para Cidade Negra (Quanto mais curtido melhor) e Martinho da Vila (3.0 Turbinado), lançamentos recentes da Sony Music.
– Com um público desses podemos nos dar ao luxo, ao atrevimento de inovar, de gravar outros segmentos –, diz Zezé di Camargo, revelando que percebeu a beleza dessa diversidade de tendências ao assistir ao Carnaval de Salvador este ano. "Fiquei impressionado, vendo como no Carnaval da Bahia eles tocam todo tipo de música, todo segmento musical em cima de um trio elétrico", comentou. Ele disse que a diversidade de ritmos do Carnaval de Salvador levou-o a compor o axé Sabor de Pecado, com arranjos de Radamés e base de percussão gravada no Estúdio WR (Salvador). Ainda inspirado no Carnaval, fez Quando a cabeça não pensa, bolero estilizado, carregado de sons de teclado.
A gravação deste último CD consumiu 700 horas em estúdios, somadas ao tempo de composição. "Fizemos um bom trabalho, o melhor até agora, com o qual pretendemos mostrar Zezé di Camargo e Luciano lá fora", disseram os dois, confiantes na canção Deus salve a América, que traz arranjos clássicos e uma alegoria na abertura, que termina com um coro tirado a canto gregoriano.
– Pensamos nesta música para um trabalho maior, com o Unicef, talvez, convidando artistas latinos, com os quais gravaríamos em seus países. Uma gravação na Argentina, com artista argentino; uma na Venezuela, com artista venezuelano –, informou Zezé, adiantando que a CNT chegou a convidá-los para gravar um clipe com uma cantora country norte-americana, para lançar no mercado latino. "Sabemos que não atingiríamos o norte-americano, ele é avesso ao que não da sua terra, mas o latino que vive nos Estados Unidos e por toda a América Latina", disse Zezé di Camargo.
A letra de Deus salve a América fala do potencial do continente sul-americano, em contraste com o descaso do seu povo. Os autores (Fauzi e Jamil) são do interior de São Paulo. Com esta canção, Zezé di Camargo e Luciano prosseguem com o trabalho de polimento da música sertaneja, buscando os caminhos da word music, como fizeram na faixa Pra não pensar em você, que abre o disco, onde usam teclado, bateria eletrônica, dispensando as cordas. "É uma linguagem diferente da que sempre fizemos", disse Zezé, certo de que estas inovações não comprometem o trabalho da dupla.
" Não estamos nos distanciando, estamos mostrando nossa verdade, pois a coisa está ao nosso alcance", acredita Zezé, que não afasta a possibilidade de a dupla gravar um disco somente com modas de viola ou canções nitidamente sertanejas. "Se a gente quiser fazer música totalmente sertaneja, com viola e tudo, a gente faz, pois nós temos conhecimento de causa. Mas entendemos que conquistamos um público, vendendo 1 milhão de cópias a cada disco, e temos o crédito dessas pessoas, que dizem: Eles gravaram, então vamos ouvir o que eles querem dizer", completa.Zezé di Camargo disse que a dupla tem sentido a falta de composições românticas. "O que faço está dando para o gasto, mas falta gente para entrar no lugar de compositores como Massadas, Marcos Valle, Márcio Greyck e outros, que diminuíram o ritmo", comentou, acrescentando, entusiasticamente, que ele é o terceiro compositor romântico do país, estando em primeiro lugar Roberto Carlos. O trabalho da dupla deverá ter uma projeção internacional depois que for apresentada ao mercado latino-americano por Julio Iglesias, a partir de um show em São Domingos, capital da República Dominicana, ainda este ano. "Já vendemos 12 milhões de cópias, desde que começamos a cantar, em 1991, e isso não é brincadeira", diz o brincalhão Zezé, voltando-se para o irmão: "Não é isso mesmo, Luciano?".

O DISCO - Pra não pensar em você (Cesar Augusto/Piska) - Faixa de trabalho, que busca o caminho da world music, do pop som.
Flor de flamboyant (Zezé di Camargo) - O autor define como um bolero, nos moldes dos que estão acostumados a gravar.
Imperfeito (Cesar Lemos/Karla Aponte) - Os dois autores residem em Miami e a música é a preferida de Zezé di Camargo.
Dois corações e uma história (Danimar/Carlos Randall) - História de um casal, separado, que se prepara para o reencontro. Parece cordel musicado.Pior é te perder (Alvaro Socci/Claudio Matta)- Canção urbana, um balanço de autores cariocas.
Amores que vêm e que passam (Danimar/Carlos Randall) - Canção romântica sertaneja no estilo da dupla.
Volta pro meu coração (Cesar Augusto/Piska)- Na mesma linha da canção anterior e colocada no disco, diz Zezé, para agradar aos fãs.
Quando a cabeça não pensa (Zezé di Camargo) - Novamente um bolero com balanço sertanejo, um pouco estilizado, ainda na busca da world music.
Seca malvada (Lalo Prado/Cecílio Nena) - O arranjo coloca, juntos, sanfona, guitarra e violino, mas não descaracteriza a dupla.
À queima roupa (Zezé di Camargo) - Os acordes de bandônion dão a impressão de se tratar de um tango, mas é uma outra canção da dupla. Sabor de pecado (Zezé di Camargo)- O autor diz que é uma canção à la Timbalada, perto do axé. Foi feita durante o Carnaval de Salvador.
Meu país (Zezé di Camargo) - Canção que fala dos sem terra, queimada e problemas sociais. Zezé diz que faltava algo assim em sua carreira.
Fim de festa (Lucas Robles/Antonio Luiz) - Nos moldes de canções country busca agradar os clubes de fãs de Barreto.
A mais louca paixão (Carlos Randall/Danimar Tivas) - Outra canção romântica, com harmônica, nos moldes das canções namorado solitário.
Vida, viola, violeiro (Nildomar Dantas/Ivan Medeiros) - Moda de viola que, fugindo do comum, trás a batida da guarânia cortada por um rasqueado. Talvez a mais sertaneja do disco.
Deus salve a América (Fauze/Jamil) - Zezé disse que sentiam a necessidade de uma canção-hino. Pretendem gravá-la para toda a América Latina.
Felicidade. Que saudade de você (Paulo Henrique/César Augusto) - Um balanço que entra como um bônus. Saiu no disco do ano passado.

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Targino: Chora pirrita
Revista Neon/Salvador

Pirrita é um vocábulo intimista do interior do Estado de Pernambuco com o qual o tocador designa a sanfona, no êxtase da execução, quando ele e o instrumento tornam-se um só elemento. Indica, também, a exímia dançadeira, daquelas que rodam no salão feito uma carrapeta. Pode ser que a palavra tenha uma ligação com pírrica, dança guerreira, da antiga Grécia, que estimulava os espartanos, desde a infância, para a guerra.
O pernambucano de Salgueiros, Targino Alves Gondim Filho, 28 anos incompletos, agora residindo em Juazeiro, na Bahia, trouxe de volta esta figura de linguagem como se fosse um grito de vaqueiro atrás do boi perdido na caatinga. Ele aperta sua sanfona Excelsior de 120 baixos contra o peito, meneia a cabeça, bate o pé, dando ritmo a uma toada, e, em meio a uma improvisação, entoa, alegremente, “Chora, pirrita...”.
Parece que Targino, um peba autêntico (mistura de pernambucano e baiano) está falando da sua sanfona; depois, que se refere à sua amada. É um momento intimista, que aproxima o tocador de quem o vê puxar o fole. “Esta é minha maneira de tocar, tradicional, que aprendi no sertão”, define o pernambucano, em entrevista ao jornalista Ari Donato, da NEON. Sua preocupação, diz ele, é manter esta tradição, prosseguir com o trabalho de Luiz Gonzaga, seu principal leme.
Isso ele aprendeu com o pai, José Targino Alves Gondim, aluno do sanfoneiro Eugênio Gonzaga, irmão de criação de Luiz Gonzaga, que por volta do anos 60 apareceu na Fazenda Formiga, em Salgueiros, de propriedade dos Gondim, pedindo emprego. Com uma sanfona nas costas, o irmão de Gonzaga, que havia brigado com o pai Januário, chegou na fazenda, fábrica de rapaduras, e impressionou José Targino, mecânico do engenho e motorista do caminhão.
Um acordo foi firmado: Gonzaga ensinaria José Targino a tocar sanfona; José Targino ensinaria Gonzaga a dirigir caminhão. Dois bons alunos, dois bons professores, até que Eugênio retomou sua caminhada de tocador. José Targino se casou, teve 10 filhos (quatro homens e seis mulheres) e procurou passar aos “cabras” a arte de sanfoneiro. O quarto deles, Targino Gondim, prosperou, então o pai chamou Eugênio Gonzaga para completar os ensinamentos.
No final dos anos 70, ele passou dois meses em Juazeiro, onde a família de José Targino morava, para acompanhar o novo aluno. “Targino aprendeu com papai e recebeu aperfeiçoamentos de Eugênio”, disse seu irmão mais velho, Paulo Maciel Gondim, 42 anos, afilhado de Eugênio Gonzaga. Segundo Maciel, o caçula começou a tocar em 1981, com nove anos, ainda sem suportar o peso de uma sanfona de 80 baixos. “Ele surpreendeu papai, ao tocar, com 12 anos, mesmo que grosseiramente, Rosinha, canção que nosso pai usava para homenagear uma irmã nossa”.

A mesma trilha, 50 anos depois - Em maio passado, depois de ter sua canção Esperando na Janela, em parceria com Manuca e Raimundinho do Acordeon, inclusa na trilha sonora do filme Eu, Tu, Eles e receber as bênçãos de Gilberto Gil, o tocador Targino Gondim botou sua Excelsior nas costas e seguiu para o Sul do País, pegando a trilha aberta por Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e o Trio Nordestino no início dos anos 50. Em São Paulo, ele mostrou seu forró pé de serra e de vaquejada, impressionando a todos.
- O forró é ritmo autêntico do Nordeste, que já era tocado antes mesmo de Luiz Gonzaga, gênio da sanfona que soube juntar tudo e criar o baião -, ensina Targino, acrescentando que algumas canções de Gonzaga já eram tocadas de forma diferente no sertão pernambucano antes do baião. “Isso não minimiza Gonzaga, pelo contrário, mostra que ele soube juntar tudo que aprendeu e criou um ritmo que se espalhou e, durante um período, era tudo o que se ouvia no país”.
Nos últimos anos, um movimento iniciado em Brasília, espalhado pelo Rio, São Paulo e Minas Gerais, está promovendo uma releitura da música nordestina. O remelexo do forró, baião, xote, xaxado está voltando forte, juntando-se ao sacolejo da Bahia e dos estados acima do Rio São Francisco. Apoiado por essa nova visão musical, Targino Gondim materializou, em São Paulo, um trabalho que vem sendo feito também por forrozeiros como Adelmário Coêlho, Quininho de Valente, Alcymar Monteiro, Maciel Melo, Nando Cordel, Flávio José.
“ Estou começando, com pouco mais de 60 canções prontas, cerca de 30 delas gravadas, mas busco meu lugar, certo de que não será fácil”, disse, consciente de que ninguém segue a trilha de Luiz Gonzaga sem o respaldo do povo. “Como disse o Gonzaga, não se deve esquecer o povo; ele decide quem é seu rei”, raciocina Targino. “Trabalho com vontade, tendo Luiz Gonzaga como referência para ocupar um lugar de tocador e cantador de forró”.
Ele disse que pensou em desistir, logo que começou, por falta de espaço para divulgar suas canções. As dificuldades, os esquemas impostos pelas gravadoras e os pagamentos em dinheiro exigido por algumas rádios para tocar suas músicas nas rádios. “Estive para desistir, mas pensei em todos os que investiram em mim, que confiaram em mim e cheguei a conclusão que não tinha o direito de entregar a luta, de fugir; então, segui em frente e, com toda força, vou buscar meu lugar’, disse.
Sujeito pacato, nordestino, brejeiro e puro, como define a si mesmo, Targino Gondim dá prosseguimento ao que aprendeu com seu pai. “No sertão pernambucano, naquela ocasião, o sonho de todos era dirigir caminhão e tocar sanfona, e meu pai fazia isso”, conta Targino, contando que, depois de um dia de trabalho, seu pai sentava-se na calçada da casa, em frente ao Cine Salgueiro, pegava a sanfona e tocava. Targino ainda não havia nascido.
São imagens de um sertão castigado pela seca, falta de trabalho e abandono, mas cheio de poesia e lirismo que aparecem em belas canções como Na Sombra do Juazeiro, Sertão de Curaçá, Meu Viver, Jeito Maroto, Coração em Pedaços, Pra se Aninhar. Desde que começou a gravar suas músicas, Targino lançou seis discos. O sétimo, a ser produzido por Gilberto Gil (Geléia Geral) sai no início próximo ano. A gravação começa em agosto.
- Eu componho para mim, não sei se conseguiria fazer uma música sob encomenda ou se me sentiria bem recebendo uma letra para musicar. Tentei fazer isso, mas até hoje estou com algumas letras em casa, sem sair dos primeiros versos. Minha música sai de mim naturalmente, como aconteceu com Esperando na Janela, em que a melodia e o refrão (Por isso eu vou na casa dela/ai...ai/falar do meu amor pra ela/vai...) surgiram no chuveiro.
O primeiro disco, Baião de Novo, foi gravado em 1996. No ano seguinte, Ouro Branco. Em 1998, gravou dois discos: Nem por um Milhão e Esperando na Janela. Em 1999, lançou Inda Tô Daquele Jeito Este Ano e a coletânea As Melhores de Targino Gondim. São produções independentes, mas que Targino, pilheriando diz que são discos dependentes. “É um contra-senso dizer que se trata de uma produção independente; são as mais dependentes possíveis”.
A música tocada e cantada por Targino Gondim, muitas delas ricas em imagens, como Forró de Vaquejada, Balanço do Coqueiro, Carrapeta de Batom e Na Sombra do Juazeiro, trazem de volta o forro pé de serra, mesmo que em uma ou outra canção tenha baixo, guitarra e teclado. Gilberto Gil não teve dificuldades para interpretar com alma de sertanejo a canção Esperando na Janela, incluída no seu novo CD e na trilha sonora do filme Eu, Tu, Eles, premiado este ano em Cannes.
Gil fez pequenas alterações no arranjo original, incluiu três notas a mais na abertura, tirou os teclados e a bateria originais, realçou mais o triângulo e deu ao xote uma batida mais pé de serra do que quando cantado por Targino. “Não sou conhecido como Gil e, para ter minha música tocada, principalmente nas rádios, tenho de sair do pé de serra bruto, botar uma bateria, um teclado, infelizmente sou obrigado”, lamenta, obrigado a fugir dos ensinamentos do velho José Targino.
Mas, esses percalços da caminhada já não desanimam mais o tocador, que tem planos para sua carreira. Seu sotaque nordestino, que embeleza toadas brejeiras, forrós animados de vaquejada, xotes chorosos tirados a rancheiras e baiões e xaxados, pesou bastante no convite que lhe foi feito pelo Quinteto Violado, para a Missa do Vaqueiro, dia 29 deste mês, em Sítio das lajes, interior de Pernambuco. “Estou imensamente feliz; cantar na Missa do Vaqueiro era meu sonho”, diz ele.

O forró é nosso, nada tem do for all inglês - Na sua concepção, com base em um estudo de Ariano Suassuna, a palavra forró, que designa dança e folguedo no Nordeste, é antiga, antes da chegada dos americanos com a segunda guerra, daí não ser verdadeira a versão de que seria uma corruptela da expressão inglesa for all (baile para todos) que o nordestino diria, com erro de pronúncia, “forró”.
O Aurélio registra que forró é uma forma reduzida de forrobodó, que significa confusão, desordem e, por extensão, farra, festa, arrasta-pé. “Ariano Suassuna encontrou um dicionário português, do século XIII, que já trazia o termo forrobodó, como festa, do cancioneiro de Portugal, e que tem, como forma reduzida, forró, a festa do serão nordestino”, diz Targino.
- A versão de que o forró vem da expressão for all, para dizer que os americanos promoviam festas para todos os nativos, e que os nordestinos, erradamente, pronunciariam, forró, inverte a história da língua portuguesa e descaracteriza nossa cultura. É preciso desmitificar isso e resgatar uma verdade. Os americanos entenderam errado; eles é que chamaram forró de for all -, raciocina, acrescentando:
- Quem primeiro contou essa história de que o for all virou forró foi Luiz Gonzaga. Mas, o velho Lua apenas reproduziu o que ouviu, sem ter um estudo mais apurado. O Ariano Suassuna tem documentos que mostra a brasilidade da palavra forró e o Xangai (cantador baiano) tem levado adiante essa versão de que o termo forró que vem de forrobodó, palavra tão brasileira quanto nossa própria língua, legada pelos portugueses.

O xote Esperando na Janela foi gravado pela primeira vez em 1998, no quarto CD do sanfoneiro Targino Gondim. A melodia e o refrão (Por isso eu vou na casa dela/ai...ai/falar do meu amor pra ela/vai...) surgiram no chuveiro, conta Targino, lembrando que completou a letra com os compadres Manduca e Raimundinho do Acordeom. Em poucas horas, a canção ficou pronta, melosa, mas sem ser piegas. Se fosse na vaquejada, o locutor gritaria: “Valeu o boi”.
O disco, uma produção independente, com 12 faixas, tem outras composições belas, como Jeito Maroto, do poeta Maciel Melo, que fala de um amor platônico, Forró de Vaquejada, com puxadas de um vaneirão, do próprio Targino, que usa as imagens de uma vaquejada como se fosse um jogo de cenas. Uma beleza, nos moldes de Domingo no Parque, de Gilberto Gil, e a embolada Moda de Mulher, de Araújo Filho, conta com a participação do sanfoneiro João Sereno, uma constante nos tabalhos de Targino.

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Alcymar Monteiro: Cultura nordestina no contexto mundial
Revista Neon/Salvador - junho/2002

Alegre, espirituoso e sempre tamborilando quando fala da música nordestina, o cearense Alcymar Monteiro, 49 anos, é uma daquelas pessoas que, ao conversar, derramam humildade e mostram que ser artista não é apenas ter louros em volta da cabeça. Começou a cantar com cinco anos de idade e gravou seu primeiro disco em 1972, aos 19 anos. Foi criado em ambiente musical, ouvindo reisado, bumba-meu-boi, cantador de viola, ganzá.
“ Sempre fui apaixonado pela nossa cultura, por esta música linda, como a da banda cabaçal, de onde Luiz Gonzaga tirou, sabidamente, o zabumba, para formar o baião”, destaca, com muito conhecimento. Em entrevista ao jornalista Ari Donato, para a NEON, ele disse que, dessa forma, inconscientemente, estava formando seu espírito, seu amor à cultura nordestina.
– Espiritualmente, sou um artista apaixonado pelos nossos valores. Um menestrel como o cego Oliveira, para quem eu fiz uma canção (Um Recado, uma Sanfona, uma Rabeca) com Maciel Melo (eu vou cantar um xote/dentro dessa brincadeira/que eu trouxe lá da feira/foi um cego que mandou). São coisas que ouvia ele cantar, com sua rabeca, sua voz de feira, arrastada: “José de Souza Leão/antigo cantador”.
Alcymar Monteiro se sente um fruto dessa gente, “desse trabalho despretensioso, materialmente falando”, que foi o princípio, o primórdio da cultura nordestina. “Esses folguedos todos dão uma noção da ópera que é o Nordeste do Brasil, por isso é que nos meus shows há um balé vestido a caráter, com maracatu, caboclinho, coco de roda, ciranda, bumba-meu-boi, frevo e é toda esta parafernália que faz do nosso show uma opereta nordestina”.
Antes de começar a canta, o adolescente Alcymar passou pelos programas de calouros e bandas de bailes da região do Cariri, sul do Ceará. Neto de violeiro e sobrinho de sanfoneiro, ele é o quinto filho de uma família de nove irmãos, entre os quais João Paulo Jr., compositor de formação roqueira com quem divide muitas de suas canções. Fez teatro, estudou música no Conservatório Alberto Nepomuceno (Fortaleza). 
Cursou até o 3º ano de Letras na Universidade do Vale do Acaraú (CE) e concluiu o curso “na universidade da vida”. É autor de cerca de 500 composições e gravou 30 discos, dos quais quatro foram lançados em países da Europa, no Japão e nos Estados Unidos. Reside, atualmente, em Recife (PE), onde fundou a Ingazeira Discos e Edições Musicais Ltda. Defende que o artista deve ser um traço de união entre os que estão chegando e os que chegaram antes.
Alcymar já gravou ao lado de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca, Amelhinha, Teca Calazans, Tânia Alves, Alceu Valença, Zé Ramalho, como intérprete, gravou Chico Buarque, Caetano Veloso, Lupicínio Rodrigues, Joubert de Carvalho, Raul Seixas, Luiz Gonzaga, Nando Cordel, Dominguinhos e teve músicas suas gravadas por Fagner, Alceu Valença, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Jair Rodrigues, Maria Alcina, Zé Ramalho e Elba Ramalho. Disse que pretende gravar com a juazeirense Ivete Sangalo.

ENTREVISTA

NEON - Conheço o seu trabalho, tive o prazer de ouvir a quase todas suas gravações e sei que sua projeção foi rápida, mas tem sido duradoura. O que o projetou, ou quem o projetou?
Alcymar - Espiritualmente, eu acho que isso já estava predeterminado. Eu sou de uma família musical e isso já vem comigo. Quando eu comecei a gravar tinha uma noção do que realmente iria acontecer, tinha a consciência de que teria de trabalhar bastante. Todo sucesso que eu possa ter feito, que eu possa fazer ou que, em um futuro, eu possa provocar, é fruto de uma maturação espiritual, de um trabalho diuturno, de uma persistência e, antes de tudo, de um crédito que eu sempre tive com a nossa cultura, as nossa coisas, nossos mitos, santos, lugares. Então, esse sucesso a que você refere é uma somatória de tudo em que eu acreditei, acredito e continuarei acreditando.
NEON - De que forma você levou adiante este compromisso, este trabalho que acredita ser uma predestinação?
Alcymar – Primeiro, diante do amor que tenho pela minha gente, pela minha terra, pelo meu culto. Esse projeto, de uma forma ou de outra, é um projeto que chega às raias do nordestantismo, mesmo, pois é uma coisa do meu compromisso como ser humano, como artista e como homem do Nordeste, que vê nessa atitude uma maneira de preservar a dignidade de homem nordestino.
Eu acho que isso é, ante de tudo, um trabalho que me coloca na condição de ser humano nordestino e, também, diante desta cultura, tão vasta, tão diversificada, tão grandiosa, que seria impossível eu, como artista nordestino contemporâneo, não mostrar essas coisas, que fazem com que eu seja o artista identificado com a minha origem, com o meu povo, com a minha gente. Então, tudo isso que eu tento passar é, antes de tudo, uma coisa responsável, identificada e, ao mesmo tempo, uma coisa que me torna representante do meu próprio eu, na condição de ser humano nordestino.
NEON – As coisas não surgem do nada, sempre há um ponto, uma origem, uma influência, então, nesta cultura vasta, quem o teria influenciado na música, na cultura?
Alcymar – Eu gosto de ler, de conhecer as coisas da minha terra, por isso sofri influência de Zé da Luz, de Pinto de Monteiro, grandes repentistas, de Lourival Batista, o “Louro”, grande representante da viola, da cantoria. Afora esses, eu ouvia Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro...
E toda essa gama de informação me deu condição, me deu o mapa cultural que de uma certa forma é a mistura da cantoria com a banda cabaçal (terno de zabumba), com a novena, com a novena, com o reisado, com os folguedos, com as procissões. Eu estive interno dois anos (1964 a 1965) em um colégio, quando pude mesclar o religioso com o profano, a viola com a sanfona, o pífano com o cabaçal e, então, me considero um fruto dessas influências todas. Daí minha paixão por nossa cultura, porque eu vejo que ela é tão diversificada, tão grandiosa, tão mitológica que não posso fugir dessas influências, que sofri e que sofro até hoje.
Eu vou muito às feiras livres para ouvir os menestréis, com a rabeca, cantando verso de cordel. Eu gosto muito desse tipo de coisa, que considero a raiz mais profunda da nossa cultura, que chega a ser moura, ibérica, pois é isso que nós somos.
NEON – Sei da sua admiração por Jackson, que você citou como sendo uma dessas fortes influências...
Alcymar – É, eu citei Jackson e ele é o aperfeiçoamento rítmico da nossa cultua, pois ele universalizou a nossa cultura, descobrindo a possibilidade, dando a liberdade, de se cantar 2x2, 3x1, 4x5, 5x2 (divisões do compasso musical, até então com predominância 2x4, 3x4, 4x4). Ele deu esta dimensão aos novos, fez uma escola, criou uma escola, não sei se conscientemente ou inconscientemente, já que vem aí a espiritualidade do artista, em tudo que ele faz.
Jackson do Pandeiro foi o aperfeiçoador do baião, do forró; misturou o forró com o samba, misturou o forró com o coco, misturou o baião com a cantiga de cego de feira.Veja em Lamento de Cego (irmão que está me escutando/preste bem atenção/já vi um cego contando/sua história num rojão), essas coisas de cantoria e de desafio. Então, Jackson foi um artista genial, está muito além da sua época, vai ser descoberto, pelo que representou, pela grandiosidade da sua obra, daqui há uns 100 anos.
NEON – Ele não tinha, então, uma consciência, uma dimensão do que estava fazendo, do ponto de vista sociocultural, e o que produziu é fruto daquilo que você denomina espiritualidade do artista?
Alcymar – Ele não tinha a dimensão do que fazia. Hoje, lá do lado espiritual, onde está, ele deve exclamar: “Mas, rapaz, de repente eu butei tudo isso e num sabia que era tão grandioso, que era tão forte, que iria influenciar Alcymar Monteiro, Trio Nordestino, que iria influenciar tantos e tantos poetas que fazem um trabalho dentro desse setor...”.
Pois nós, artistas, somos setorizados. Eu sou setorizado por Luiz Gonzaga, pela poesia, pela melodia, pela responsabilidade de enfocar nossas causas, nossas coisas, nossos dramas, nossas angústias, nossa beleza, nossa sutileza. Gonzaga foi o grande representante disso, ideologicamente, o grande arquiteto, o etinólogo de toda esta gama de coisas bonitas que o Nordeste exportou para o mundo e que, depois, veio o Jackson do Pandeiro e deu a sampleada final, na liberdade interpretativa de qualquer um que cante forró e cante o baião.
NEON – Isso seria a nordestinidade que você defende e que é forte em seu trabalho?
Alcymar – É, sim, é a nordestinidade. Na verdade, é o nordestantismo de Luiz Gonzaga e a nordestinidade de Jackson do Pandeiro.
NEON – Qual a diferença...
Alcymar – O nordestantismo é a consciência de mostrar o povo, uma nação, uma cultura; a nordestinidade é dar a modernidade que esta cultura precisa para sobreviver. O Jackson do Pandeiro foi isso...
NEON – Então, os dois são pontos de apoio do seu trabalho?
Alcymar – Sim, o meu trabalho se funde nesses dois, com mais o Pinto de Monteiro e Zé da Luz. Com eles eu tenho viola, cantoria, baião e a liberdade da ritmidade. O meu trabalho, tenho consciência, se situa dentro desses quatro elementos.
NEON – Quem mais estaria fazendo um trabalho nesta linha, de preservação da nordestinidade?
Alcymar – Zé Ramalho, embora seja mais puxando para o mouro, má tem identidade muito grande com o Nordeste. Também, o Alceu Valença...Alceu Valença é um cantador de viola (viola nordestina), cantando coisas modernas. Pouca gente percebe o trabalho de Alceu Valença, que é grandioso, com a sua liberdade, que lhe deu a condição de ser um tropicalista dentro do forró. Em Dia Branco ele canta o travesti (cadê a louca das lantejoulas/o seu vestido de bailarina), foi além daquela letra que fala só do cotidiano, deu uma universalidade maior ao forró para o lado poético. é um cantador de viola cantando forró, o Alceu é isso aí...
NEON – Você trouxe outros compositores para seu último disco, Levanta Poeira, e um deles foi o Edgar Mão Branca, de Vitória da Conquista, discípulo de Elomar. Ele, também, estaria fazendo um trabalho nesta linha?
Alcymar – Faz, sim. Mão Branca é um vaqueiro universal. Seu trabalho tem algo de modernidade, algo do matuto, mais humilde, mais simples, do caboclo da roça, que diz: Agora que a saudade bateu/o que é que eu vou ficar fazendo aqui/nesse mundão de Deus, sem ela/se é ela é quem governa eu (versos da canção Sem Ela, gravada por Alcymar). Ele tem essas coisas do matuto, mas ditas de forma universal, erudita...
NEON – Eu ouvi esta canção, no seu último disco (Levanta Poeira), e não me pareceu fácil cantá-la, estou certo?
Alcymar – Você tem razão, é difícil, porque a música de Mão Branca tem, também, uma parte harmônica muito difícil, muda de tom, às vezes, a cada palavra. No verso Agora que a saudade bateu/o que é que eu vou ficar fazendo aqui/nesse mundão de Deus, por exemplo, há mudanças de tons com muita rapidez. Isso é coisa do cantador, de harmonia rápida. Mas, desses novos da Bahia eu citaria, também, Hugo Luna, já é para o lado clássico. Eu penso que ele ainda não encontrou o caminho, o espaço para a popularização, por ele ser meio erudito na música que faz. Tem algo de erudito naquilo que ele faz, não se pode negar sua importância.
Nós tempos muita coisa boa por aqui, grandes expoentes. Há um Elomar, um Xangai, com operetas, com coisas mais para analisar do que ouvir. O trabalho de Elomar e o de Xangai são trabalhos analisados antes de serem audíveis. São coisas que o Nordeste está se preparando para ter esse alcance.
NEON – Talvez, por isso, eles não estejam constantemente em shows, não sejam tão populares?
Alcymar – Não são, vamos dizer assim, populares, e fazem questão de não ser, pela própria proposta de trabalho. Mas, eles têm um público cativo e, no meu modo de ver, somente serão devidamente compreendidos daqui muitos anos. Eles são, de uma certa forma, o Verdi (Giusepe Verdi, italiano, compositor de óperas, 1813-1901) da música do Nordeste.
NEON – Enquanto Alceu Valença, Elomar e Xangai e outros ainda não são, devidamente, valorizados surge uma enxurrada de forrozeiros, de bandas e músicas chulas, com uma inegável pobreza musical. Qual sua avaliação...
Alcymar – Infelizmente ainda há muita gente que acredita que o econômico vence o cultural. É puro engano, a cultura é senhora de si. O próprio povo redescobre a cultura, pois ela existe, independentemente do que fazem com ela. A cultura é senhora impassível que, se você lhe estende a mão, ela retribui e lhe puxa; mas, se você não lhe der a mão, ela simplesmente segue adiante e você se perde.
No meu entender, o mercantilismo perverso e vulgar é um desserviço à música, um desserviço ao povo, pois incute na pessoa aquilo que não lhe é peculiar, deseducando-a, cortando-lhe o poder de transmitir para as futuras gerações esses ensinamentos, que são a alma de um povo. A cultura é a alma de um povo.
NEON – Que prejuízos esta prática pode trazer para um povo?
Alcymar – Muito, muito. O prejuízo será enorme, quando essas futuras gerações se tornarem pensantes, pois vão descobrir que não deixaram nada para elas... Que beberam a água até estagnar a fonte, e uma fonte estagnada (com a água empoçada) é uma fonte sem razão de ser, não tem razão de vida. As gerações dos anos 80 e 90 (décadas de 1980 e 1990) são órfãs de informação, de credibilidade, de seriedade, e as pessoas que fizeram, que fazem isso, são responsáveis. Há de se creditar a essas pessoas essa irresponsabilidade cultural. Elas, essas pessoas, podem até ter muito dinheiro, mas o dinheiro não é tudo. Na minha concepção, o dinheiro não é 100%, pois o tudo para mim é a cultura, é a valorização, é a sabedoria, é o entretenimento. Cultura neste País, há de chegar um tempo, será obrigação do Estado, não vista apenas como diversão.
NEON – Você vê alguma perspectiva, uma luz, uma mudança. Quem está fazendo algo que lhe traz esperanças?
Alcymar – Há sim, uma luz, que tenho a certeza de que já se acendeu e que está iluminando numa direção. Esta luz é a classe pensante, é a classe universitária brasileira, que perdeu o medo de assumir as suas raízes. Como é uma classe economicamente, culturalmente privilegiada, ela vai, de uma certa forma, devagarzinho, palmilhar todo este chão da ineficiência cultural e vai reconduzir tudo ao seu eixo, à sua coerência. Cabe ao universitário brasileiro redescobrir nossos valores. Redimensionar, não reinventar, pois tudo que é bom já está sendo inventado.
Também a imprensa tem um papel fundamental neste trabalho. De começar a fechar as portas para as coisas que não têm significado nem valor, que são, mesmo que economicamente viáveis no momento, culturalmente danosas. Seu papel é de redescobrir grandes valores que estão no anonimato, buscar a cultura marginal, que a qualquer hora dessas vai explodir no País todo.
NEON – Os universitários já iniciaram este movimento ao qual você ser refere...
Alcymar – Já começou, sim. Eu mesmo tenho provas visuais, pois noto em meus shows a presença de uma classe bonita, fisicamente, o que é muito bom, pois ninguém gosta de ver nada feio, e o bonito é bonito aos olhos. Vejo presente uma classe economicamente privilegiada e culturalmente consciente, que dá ao forró a condição de uma grande alavanca dessa nova era cultural do Brasil. Tivemos a Bossa Nova, o Tropicalismo, algumas coisas que não chegaram a se tornar grandes movimentos, mas que foram importantes, e, com certeza, nos próximos 20, 30 anos, o forró vai ser a renovação da cultura do Brasil e o grande sustentáculo da nossa gente. O forró, antes de tudo, tem representação e, no seu conteúdo, etnia.
NEON – O que o faz pensar assim?
Alcymar – Quando canto nas praças, nas ruas, vejo que isso já está acontecendo, que o povo está dizendo não às coisas chulas. Quando se canta Assum Preto (Humberto Teixeira/Luiz Gonzaga, 1950) e Sala de Reboco (Luiz Gonzaga/José Marculino, 1964) a juventude vai à loucura. Isso, porque aquilo é a identidade que estava sendo perdida e que foi reencontrada.
NEON – Na década de 1960 houve, igualmente, um reencontro com essa identidade...
Alcymar – É, começou nos anos 60, depois adormeceu um pouco. Deu uma levantada, voltou a adormecer e, agora, o avião pegou um vôo, alto, inevitável, pois é uma tomada de consciência de Brasil, dessa juventude, uma maioria neste País. E quando a maioria resolve mudar, não se pode segurar, e a maioria está tendo uma consciência de nordestinidade, que me deixa feliz.
NEON – Naquela década da movimentação estudantil, no final dos anos 60, que surgiu na Europa e chegou ao Brasil, para a busca, também, desta identidade, em que ponto você se encontrava?
Alcymar – Eu ainda era muito jovem (nasceu em 1953), tinha poucos anos de vida. Mas eu já tinha uma consciência de que todo nordestino tem como dever valorizar sua cultura, sua gente, seu povo, já que sabemos que nação nenhuma consegue algo no mundo, no contexto mundial, sem ter uma cultura forte. E esta cultura não deve ser somente musical, não. Cinematográfica, de pensamento. Escritores, poetas, músicos, são o pensamento de um País. Nada ficará, pois o tempo destrói tudo, menos a cultura. Ao invés de destruir a cultura, o tempo a aperfeiçoa, redimensiona a cultura. E esses representantes são, de uma certa forma, partes integrantes do nosso povo. Quero dizer, da nossa cultura, da nossa informação. Tenho certeza que essa gente terá um lugar na história do Brasil por lutar tanto e por defender aquilo que lhe é peculiar, que são os nossos valores musicais.
NEON – Do ponto de vista político, o que este movimento de nordestinidade poderia representar para a região?
Alcymar – Muito, muito. Eu acho que o Nordeste, hoje, pela gama de artistas que tem, pela gama de informações que tem, pode reivindicar o que quiser. Quando tivermos um ministro da Cultura nordestino, ou comprometido com a cultura do Nordeste, o Brasil verá acontecer muita coisa. Todos os movimentos musicais, culturais, teatrais, cinematográficos brasileiros não existiriam sem os 40% ou 50% da cultura do Nordeste que estão inseridos nesses movimentos.
Glauber Rocha é um exemplo. Quando fez cinema no Brasil foi considerado um doido e, agora, é que estão começando a assimilar a obra dele. Estamos na frente, estamos adiantados e aproveito para uma mensagem ao futuro presidente da República, que vai entrar daqui a alguns meses: nomeie para o ministério da Cultura um homem do Nordeste, com raízes fincadas na alma do seu povo, para que passemos a vender o que nunca soubemos, que nosso potencial cultural.
Certo, vendemos soja, estamos vendendo avião, mas precisamos vender a cultura, também. Jorge Amado fez o trabalho dele. Seus livros estão editados em diversos idiomas, no mundo todo.Isso é bom para nós, pois nos vende, no bom sentido, como povo, como nação, identificável na cultura mundial. É isso que nós precisamos fazer. Eu estou fazendo a minha parte e espero que o governo faça a sua parte.
NEON – Este trabalho gera sucesso, mas você tem falado com muita preocupação, sobre o sucesso, que dá e que tira do artista. O que você faz para não ser envolvido?
Alcymar – Sucesso é uma coisa perigosa, é faca de dois gumes. Se o artista for preparado, espiritualmente, o sucesso dá a ele, cada vez mais, margem para produzir, para criar e até recriar alguma coisa que já tenha feito. Dentro da cultura cabe a recriação do próprio trabalho. Mas, se o artista é imbecilizado, materialista, aí o sucesso o engole, rápido. Do jeito que entrou, sai pela mesma porta, de mãos abanando, não construiu, não se dedicou, não teve coragem nem força para suportar o peso do sucesso.
O sucesso, na minha concepção, é como uma via de dois trilhos, onde o artista tem que andar com os dois pés: um pé em um trilho, outro no outro. Não deve andar em um trilho só, pois pode querer voltar na contramão e fica sem nada. O sucesso é uma coisa boa, perigosa e, ao mesmo tempo, algo que nos remonta à reflexão, à responsabilidade e que deve ser traduzido em humildade...
NEON – Você experimenta esse sucesso, vai por esses trilhos, não?
Alcymar – É, já estamos colhendo alguns frutos, de sementes plantados anos atrás. São frutos bons, para mim são frutos doces, pois o amargo é doce, se doce nos parece.
NEON – E que faz você para colocar em prática este pensamento, enfim, para conviver com o sucesso?
Alcymar – Falar comigo. Eu converso muito comigo, eu reflito. Minha alma não descansa muito porque estou sempre perguntando a ela: Você vai pra onde; olhe, não vá por aí, que você vai me levar junto e eu vou sofrer com isso. Então, a minha alma... eu estou sempre conversando com ela, estou sempre muito bem com ela. Primeiro, porque ela não é minha, ela pertence ao Cosmo, ao Universo, e por ela não ser minha, tenho que conversar muito com ela, para que ela fique bem comigo.
A alma é uma senhora que caminha, independentemente do nosso físico. Ela vai longe. Eu posso estar aqui, mas ela em Zurique, em Milão, e eu vou estar lá, junto com ela. Então, veja bem, com esta velocidade que o espírito possui, temos de estar muito bem com ele, para não definhar nas drogas, para não definhar no orgulho, não definhar na prepotência, na falta de conhecimento.
A alma é, necessariamente, uma senhora que requer informações diuturnamente, para que nosso físico fique bem, para que possa suportar as agruras, as alegrias, que são frutos da espiritualidade. Então, eu pergunto: Estou bem comigo, e respondo, estou.
NEON – Sua formação religiosa é...
Alcymar – Kardecista, criei-me na Igreja Católica, fiz Primeira Comunhão, estudei dois anos em colégio de padre, quando conheci a religiosidade mais profundamente, e estou certo de que a religião é necessária. Aliás, a fé é uma coisa necessária, a religião não o é. A religião pode ser qualquer uma, mas a fé, não, é única. A fé é uma coisa que o ser humano tem de ter.
NEON – Fé em que, em quem?
Alcymar – Em Deus. Para mim Ele é um ser Maior. E, na minha concepção, Ele está, lá, no Céu, com um livro imenso, com milhões de páginas, onde Ele anota a nossa vida.
Cada um de nós tem um registro e Deus, na sua sapiência, na sua velocidade de pensamento, faz observações: Veja você, eu lhe dei dinheiro, você não ajudou o próximo; eu lhe dei uma voz bonita, você não canta para as pessoas; eu lhe dei uma inteligência, você a usa para o mal. E, quando Deus resolve, tira essa pessoa de cena. Deus, para mim, é o superlativo da bondade.

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Xangai, um cantador das belezas do sertão brasileiro
Publicado na Revista Neon

Seu nome de batismo, sacramentado em uma igreja de Vitória da Conquista, é Eugênio Avelino, mas ele é conhecido em todo o país como Xangai, cantador, exímio cavaleiro, laçador de boi na caatinga. Fala em quatro palavras, mas é de palavra, sertanejo autêntico, que cumpre à risca o que promete.
Disse que deixaria de beber cachaça, um mal que acompanha o nordestino, e deixou. Seguindo o mesmo caminho de Elomar, outro catingueiro, também de Vitória da Conquista e também cantador, ele despreza o modismo e se recusa a gravar o que o marketing (o marquetismo, como prefere) aponta como sucesso. Seus discos, num total de 18, entre individuais e coletivos, são bem aceitos em todo o país, e deram-lhe o Prêmio Sharp de Melhor Canção no ano passado, com Nóis é jéca mais é jóia, de Juraíldes da Cruz, do Tocantins.
Em entrevista ao jornalista Ari Donato, da Neon, dia 17 de outubro, depois de um show na Praça Quincas Berro D’Água, no Pelourinho, Xangai fez uma análise da atual situação da MPB. Disse que não era uma crítica, por não se considerar capaz de fazê-la, que falava a partir do que sente, do que compreende, que pode não estar certo para algumas pessoas, mas está coerente com sua consciência.
Honesto, sincero, mas preocupado em não minimizar o trabalho do artista, ele defende uma censura a letras de péssimo gosto, que, no seu entender, impedem o crescimento espiritual do ser humano e prejudica, principalmente, a formação das crianças. “A arte é espiritual”, ensina Xangai, que diz, sem rodeios, que Deus é seu Mestre. Discípulo musical de Elomar, mas consciente de que o cantador conterrâneo é mestre dele e de outros, mas não O Mestre, o conquistense Xangai está numa caminhada segura, amparado por um público que ele diz ser “o melhor do país”. Simples, educado e, sobretudo, cortês com as crianças, Xangai ainda não esqueceu o seu lado de menino interiorano, sempre preocupado em ajudar aos que o procuram. Seu show, no Pelourinho, teve como ingresso latas de leite em pó, depois encaminhadas a casas de assistência a crianças carentes.
Ele continua sendo o Eugênio da antiga Sorveteria Xangai, de propriedade do seu pai, em Nanuque. “Meu apelido vem daí, da sorveteria que meu pai tinha e onde trabalhava com ele, fazendo sorvetes”. “Agora”, realça ele, “sou um alquimista culinário”. “Culinário-musical”, corrige.

Neon - Houve um período da história brasileira em que a MPB esteve impossibilitada de chegar ao grande público, devido, principalmente, a uma censura de ordem política. A censura acabou, mas a boa música brasileira continua distante das massas, porque?
Xangai - Porque está precisando voltar uma censura. Não como patrulha ideológica; não como uma censura de forma ideológica, mas uma censura educacional, no sentido de promovera, não o que é promovido hoje, o que é mostrado. Isso, sim, é que deveria, a meu ver, ser censurado. No meu entender, música de sacanagem não educa uma criança, não educa ninguém. Não educa a empregada, não educa o culto, não educa o intelectual. Há boas músicas, boas poesias e textos bem feitos. Não estou com isso apregoando a volta da censura. Seria como se fosse isso: cada um pode gravar o que quiser, mas, quanto a ser veiculado, aí sim, haveria uma coisa disciplinando essa divulgação.
Neon – Quem faria esse papel de disciplinador, o governo, o músico, a mídia?
Xangai – Eu não sei. Eu gostaria, também, de ser o ministro da Cultura. Sei que jamais serei convidado.
Neon – E se você fosse o ministro da Cultura, faria esse disciplinamento a que se refere na música?
Xangai – Claro. É uma questão mesmo de estética, porque a gente sabe o seguinte: rosa tem cheiro de rosa; esterco de cavalo tem o cheiro de esterco de cavalo; xixi de bode tem o cheiro de xixi de bode. Cada qual tem sua condição, tem sua realidade, daí eu reluto e digo que não venham impor uma coisa que é precária, uma coisa que não traz benefícios.
Neon – Essa música com letras deturpadas, como disse você, dificulta o crescimento do homem, como ser espiritual?
Xangai – Dificulta sim. Digo ainda, que as oportunidades estão num disparate tão grande, que assusta. Se alguém sintoniza, por exemplo uma estação de rádio, e lá está tocando uma música que não gosta, e muda para outra rádio, esta estação está tocando a mesma música, ou outra no mesmo estilo. Enfim, a mesma coisa. Nunca se ouve um Villa-Lobos, nunca ouve um Elomar, não ouve um Juraíldes (compositor e cantor goiano, 41 anos, autor de Nóis é jéca, mas é jóia, Prêmio Sharp de Melhor Canção em 1998). Não se ouve Jackson do Pandeiro, nem Luiz Gonzaga, nas rádios!
Neon – Nessa linha, Dominguinhos falou da dificuldade para chegar às praças de São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul, Bahia, onde predomina, em cada estado, estilo próprio, a exemplo da música sertaneja, do pagode, da guarânia e do axé. Você tem encontrado dificuldades, na caminhada, para levar sua música?
Xangai – Não. A dificuldade é de veiculação. Para levar minha música não tenho tido dificuldades, pois meu público é magnífico. Meu público nunca me nega, sempre está presente, sempre num crescente e de qualidade inquestionáveis. O que mais interessa é justamente a qualidade desse público. Dominguinhos tem muita experiência, muito talento. Mas, a meu ver, o pagode, o axé, essas coisas, não devem ser combatidas como ritmo. Sou contra a clooonaaagem (Xangai acentua bastante o termo). Você ouve uma música caipira, ou chamada caipira, que não é caipira, mas breganeja, e vê que eles clonam, as duplas. Tudo é clone, não tem nada de novidade. Ouve-se um grupo de axé e é a mesma coisa. Tem 100, um mil, 500 mil grupos de axé; 500 mil grupos de pagodes, tudo igual. Se for retirado um cavaco (cavaquinho) de um grupo de pagode e colocado em outro, não muda. Se um pandeirista de um grupo viajar em um outro, e vice-versa, fizer uma mistura, não dá para identificar quem é e quem não é. Mas, se você retira um músico de um grupo como o Quinteto da Paraíba, por exemplo, altera. Nesse caso tem que haver toda aquela coisa de entrosamento para a mudança. E o público ainda pergunta, onde anda este ou aquele músico que tocava no grupo?
Neon – Você começou com um trabalho estritamente regional, embora sob a influência do universalismo da música de Elomar. Depois, deu passos largo, manteve seu estilo e andou só. Que traço de união ainda liga você a Elomar?
Xangai – Total. Elomar é um referencial.
Neon – É seu mestre?
Xangai – Meu primeiro Mestre é Deus. Então, Elomar não é o meu Mestre, Elomar é o mestre. Eu nunca disse que Elomar é O Mestre; ele é o mestre. Elomar tem a faculdade de ser um Guimarães Rosa e um Beethoven, na mesma pessoa. Portanto, Elomar é maior do que Beethoven; então, Elomar é maior do que Guimarães Rosa. Eu não conheço o texto de Beethoven e também não conheço a música de Guimarães Rosa.
Neon – Se eu estiver errado, corrija-me, mas, parece que sua música é mais popular, chega mais rápido à massa e mais devagar entre os intelectuais. Você não é bem aceito entre o chamado de “intelectual”?
Xangai – Eu não sei... Eu tenho o melhor público do Brasil, de crianças a intelectuais (em um show dia 17 de outubro, no Pelourinho, onde foi feita a entrevista, crianças, adolescentes e pessoas de idade diversa tomaram cerca de 60 minutos do tempo do artista para autógrafos). Eu acho que minha música chega do mesmo jeito, com a mesma facilidade. Eu sempre digo, e penso, que gente que tem boa voz, existe muita. Entre nós músicos há muitos, simpáticos, bons olhos, boa postura, bons artistas. Mas, eu acredito que não basta cantar, e sim o que cantar!
Neon – Você se referiu, no começo, à música caipira, falando em breganeja. Certamente ouviu muita música caipira, aquela de raiz, de longa duração, cantada pelo homem do campo, da roça; ouviu também a música sertaneja, levada para a cidade, pois sua música junta elementos dessas duas vertentes. Como conhecedor, que avaliação você faz da atual música sertaneja brasileira?
Xangai – Ela está no seu melhor momento. Eu tenho tido a oportunidade de viajar pelo Brasil todo. Do Amapá até Rondônia, indo ao Acre, depois até o Rio Grande do Sul, e o que mais me chega são compositores com coisas lindas (minutos antes da entrevista, Xangai recebeu a visita de uma compositora trazendo-lhe proposta de composição). Então, a música brasileira, não só a sertaneja, mas a música brasileira está a cada dia que passa no seu melhor momento. Paradoxalmente, a música veiculada nos meios de comunicação, cada dia que passa, está no seu pior momento.
Neon – Então, você conhece algum letrista ou músico na atualidade, no estilo sertanejo? Alguém que poderia ser colocado ao lado de compositores clássicos como Teddy Vieira, João Pacífico, Raul Torres, que foram autênticos letristas da música sertaneja, e que estaria nesta boa fase à qual você se refere?
Xangai – Sem falar de Elomar, que é uma outra história, existe uma pessoa, um compositor, que se chama Juraíldes da Cruz, de Goiás, que é uma extensão desses, com sobras. Não quero desmerecer os outros, o Teddy, o Pacífico, o Raul Torres (todos já falecidos), mas o Juraíldes é um Jackson do Pandeiro do centro-oeste, um poeta, um Zé Dantas. Eu acho o Juraíldes um exemplo disso, um sujeito de uma competência, de um talento gigantesco. E já não falo mais da música sertaneja, mas da música brasileira. Quando falo, falo para meu gosto, do que eu compreendo, do que eu sinto. Posso não estar certo para outros, mas para minha consciência estou certo, e, para mim, Juraíldes está entre os cinco melhores compositores do Brasil.
Neon – Voltando a Elomar, parece que ele não tem trabalhos musicais novos, isto é, não tem composto. Se isso é verdade, o que o teria levado a diminuir o ritmo? Falta de inspiração ou desencanto?
Xangai – Não, Elomar é eternamente encantado.
Neon – Você o conhece bastante, não?
Xangai – Conheço, falei com ele hoje (momentos antes do show). Ele me ligou. É ledo engano, Elomar não perdeu a inspiração, não está desestimulado. Elomar é um vulcão, em franca ebulição, constante. Ele sempre faz música, sempre é poeta, eternamente, o tempo todo poeta, pensador. Faz óperas... Faz sinfonias. O camarada não pára, não. Hoje mesmo eu falei: Você tem feito muita coisa? E ele me respondeu: “Cada vez mais”.
Neon – Então, é que não tem sido divulgado...
Xangai – É aquilo que falei. Se você ouve um pagode aqui e não gosta; um axé, também não gosta; um breganejo, você não gosta, ou outra música que você possa não gostar, e se encontrar no rádio alguma opção de ouvir, beleza, pelo menos tem uma rádio que toca. Se você não ouve a música de um sujeito, imagina que o cara morreu, sumiu, acabou... Secou a fonte? Não...
Neon – Você acredita que o artista pode vir a perder a inspiração? Chico Buarque disse certa vez que ele teria chegado a uma fase de cansaço, quando começou a escrever livros, de falta de inspiração. Caetano não concorda, e você?
Xangai – Pode ter sido (ele se refere ao caso de Chico)... Eu acho que a busca é de cada um, o processo também é de cada um. Tem gente incansável, tem outros que broxam. Tem gente que vai rezar, na igreja, com aquela influência toda, mas quando chega na porta da igreja não dá conta de entrar, ajoelha e reza do lado de fora.
Neon – Os artistas do sudoeste da Bahia e de Minas (e nós chegamos a falar sobre isso em outra ocasião) têm uma tendência a fazer apologia ao álcool, principalmente à cachaça. Você, antes, bebia e louvava a cachaça, mas, agora, não. As razões do abandono são orgânicas, de saúde, ou de origem espiritual, de preceitos?
Xangai – Eu mesmo fazia... Deixei e as razões são de origem espiritual. O álcool tem um pacto com a forma negativa. A primeira coisa que o álcool faz com a pessoa é trazer aquela euforia. A pessoa está tendencioso a andar na força da emoção e, a partir daí, ela entra em desequilíbrio. Embola a língua, fica irritadiço, fica agressivo.
Neon – E na carreira do artista, de que forma pode prejudicar?
Xangai – Prejudica ao longo do seu caminho. Prejudica, claro! Às vezes o artista que ter no álcool uma força. O álcool é uma força. Mas deve haver uma maior força do que o álcool. Tem outras coisas melhores... Outras coisas melhores do que o álcool. A água, que simboliza a vida. Tem chás. O chá é bom.
Neon – O artista transforma e às vezes conduz seu público. Você acredita que, com essa mudança de caminho, pode fazer isso com seu público?
Xangai – Arrebanhar?
Neon – Isso...
Xangai – Quando você começou a fazer a pergunta eu pensei assim: Se a gente chegar aqui e falar para esta praça lotada, cheia de gente, pneu, pneu, pneu, pneu, pneu, pneu; câmara-de-ar, câmara-de-ar, câmara-de-ar, câmara-de-ar, câmara-de-ar, muitas dessas pessoas podem se influenciar e virar borracheiro (Xangai acha graça da comparação que ele mesmo fez).
Neon – Que avaliação você faz da atual música baiana, o axé e o pagode?
Xangai – Eu não posso falar muito. Eu apenas tenho uma observação. Falar, criticar, não. Eu não estou em condições de criticar. Eu tenho a condição de analisar, de sentir. Se é para dançar, eu acho ótimo. Para dançar..., tira a letra. O problema é a letra. Se tirar a letra, fica aquela música gostosa, cheia de porradas de tambor. O que importa é o ritmo. Se é para dançar... então, fica o tic-tum, tic-tum, tic-tum, tic-tum. Se colocar uma melodia, tic-tung, tic-tung, tic-tung, tum-tum, vai ficar mais bonitinha a melodia, mesmo que seja não muito rica, mas alegra e promove o rebolado, se é dança. Agora, se botar letra (na forma que ele condena), as pessoas vão gostar, mas vão ficar embrutecidas, pois é ruim. A letra é fraca, não diz nada, não evolui. Não traz um benefício evolutivo, espiritualmente falando. A arte é espiritual.
Neon – A partir do que a letra pode fazer, no final dos anos 70, o que era produzido em termos de música de raiz, como as de Geraldo Azevedo, Elomar, Vital Farias, Gereba, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Chico Buarque, você e outros, chegava às Universidades e aos colégios, com o Movimento Estudantil, o chamado ME. Ainda é assim, esta música chega a esses lugares?
Xangai – Eu acho que esfriou um pouco. O país vive, também, não sei se isso é bom ou ruim, acho que mais para ruim do que para bom, sob o efeito do modismo. É um negócio muito nojento, o tal do modismo. O modismo pega qualquer coisa e faz virar sucesso. Os meios de comunicação vivem de modismo. O marquetismo (marketing, ou mercadologia, no correspondente em português) promove, diz que vai ser isso, vai acontecer isso...
Neon – Sem querer transformá-lo em um visionário, mas com sua experiência... Você que canta, conversa com outros músicos, tem vivência, que perspectivas vê para a MPB agora, com chegada, sem modismo, do novo milênio? Na verdade, o que tem refletido da música brasileira agora são lançamentos de discos com shows ao vivo, discos acústicos e discos com regravação de antigos sucessos, então, o que você visualiza?
Xangai – Não sou visionário. Porque, antes da arte, a preocupação tem de ser o comércio? A comercialização... Institui-se que a comercialização deve ser, obter o chamado sucesso, o êxito, só com o descartável. Então, dá a impressão de que as pessoas não estão comprando mais, não estão criando mais. Então, estão (os artistas) preferindo gravar, como você falou, discos acústicos e repetir as gravações. Eu, por exemplo, vou fazer um disco, que vou gravar, ainda (aí Xangai ri deles mesmo), com umas oito músicas, tipo aquelas que estão no gosto do povo. Mas eu vou meter um bocado de música inédita. Mas, eu vou fazer o disco mais por sugestão do Quinteto da Paraíba (grupo de cordas que teve participação no filme Central do Brasil e passou a ser conhecido no país todo), com uma roupagem nova, erudita, em músicas como Kukukaya, Nós é Jeca, mas é Jóia. Obrigado.

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Djavan - ávido criador
A TARDE, 5 de setembro de 1998 - Caderno 2

O cantor e compositor alagoano Djavan disse (setembro/1998), no Rio de Janeiro, ao apresentar seu novo disco Bicho Solto, XIII (Epic/Sony) à imprensa, que se sentiria o último dos seres se parasse de compor. A avidez pela criação, ou para inventar canções, como ele prefere dizer, não lhe tem deixado tempo para gravar um disco como intérprete de outros autores. "Desde meu primeiro disco, tenho gravado sempre músicas inéditas, a maioria de minha autoria, e transferido para mais adiante um projeto de fazer um disco interpretando outros compositores", comentou, lembrando que começou sua vida de cantor gravando músicas de outros artistas, para novelas da Rede Globo de Televisão, quando ainda transpirava os ritmos e acordes dos banda inglesa The Beatles, que considera sua grande paixão musical e marco inicial da sua carreira.
O novo CD sai com 750 mil cópias e é o nono de Djavan pela Sony. Antes, gravou um pela Som Livre (seu primeiro disco, A Voz, o Violão e a Arte de Djavan, onde está Flor de Lis) e três pela EMI-Odeon. Um trabalho "cansativo e exaustivo", resumiu o compositor. Djavan considera o processo de composição muito cansativo, que dependente da boa vontade, da insistência do compositor. "Não basta apenas a inspiração, é preciso forçar a barra, ter desejo de compor e, às vezes, a pessoa não está como esse interesse ou não dispõe de condições que lhe permitam uma concentração", garante Djavan, admitindo que alguns autores deixam de compor "por não estarem mais dispostos a se entregarem a esse trabalho de profissional de música".
"Digo que elaborar um disco com canções inéditas, como este que acabo de gravar é como tirar leite das pedras. Depois de um trabalho assim, sempre tenho a impressão de que não terei mais forças para fazer um outro. Mas, depois, percebo que Deus me deu este dom, e que eu me sentiria o último dos seres vivos se parasse de compor".
Assim, o projeto de gravar um disco com canções de outros autores tem sido relegado a segundo plano, como ele mesmo disse. A pretensão é de reunir trabalhos de Luis Melodia, Beto Guedes, Arrigo Barnabé e outros compositores que ele considera "marginais" no cenário musical brasileiro. "Meu processo criativo está latente, a cada disco tenho cerca de 70 composições pré-elaboradas e não quero interromper isso, o que acaba por prejudicar também uma idéia minha de fazer um song book de arranjos, que poderia ser o primeiro no Brasil nessa linha, apresentando a canção e falando de seus arranjos, da sua criação", disse.
Este último CD, o 13º da carreira de Djavan Caetano Viana, tem 12 faixas, das quais ele assina nove e divide duas com Dominguinhos (Retrato da Vida) e com Gabriel "O pensador" (A Carta). A outra canção (Be Fair), em inglês, é da autoria da sua filha Flávia Virgínia, que vai lançar seu primeiro disco este ano. Sobre a composição da filha, Djavan diz que foi feita há seis anos e que entrou para seu disco por ser algo atípico no contexto da sua obra. "É uma canção bonita, que me diz muito e da qual eu gosto e não tive outra intenção que não de apresentar minha filha às vésperas do lançamento do seu próximo disco", avalia o cantor, responsável pelos arranjos das 12 faixas.
Esta quebra na linha do seu trabalho, a cada disco, é que dá à obra do alagoano Djavan a originalidade da qual o norte-americano Quincy Jones falou, quando o conheceu. "Busco colocar nos meus discos somente aquilo que concebo, que me dá segurança e que foge do óbvio", define ele, dando como exemplo a utilização de trompete, trombone e sax-tenor numa composição que fez com Dominguinhos, uma canção dançante, de inspiração rancheira, onde poderia entrar puxadas de acordeão.
"Não usei acordeão porque seria o óbvio. Seria muito interessante ter o Dominguinos tocando uma sanfona, mas também seria o óbvio, pois Dominguinhos traz a imagem da sanfona. E eu fujo do óbvio", afirmou. Assim, quando se esperava um Djavan na mesma linha de Malásia, seu penúltimo disco, aparece um trabalho com um título longo, O Bicho Solto, XIII, e pela primeira vez com números, retratando um homem sensual, lírico e apaixonado ainda sofrendo a dor de um casamento desfeito, após 25 anos de convívio. "Agora estou solteiro, depois de 25 anos de casado, mas as letras que trago não refletem em tudo o que vivi ou estou vivendo, pois eu invento situações, eu invento canções e procuro fazer com que as pessoas encontrem nas minhas letras pontos com os quais se identifiquem".
As letras desse novo disco de Djavan são fortes, eróticas, cheias de amor e, sobretudo, com mensagens positivas, de encorajamento, como em Atitudes e Retrato da Vida, e dançantes e amorosas, como em Passou. Djavan garante que versos como os que estão em A Carta, dele e de Gabriel "O pensador", passam batidos, sem ligação com seu estado emocional atual: "Se errar por amor, Deus abençoa, seja você". Nesta canção, em ritmo rap, ele escreveu a abertura, com duas estrofes de mensagens de coragem para quem está com receio de seguir adiante, depois de uma frustração qualquer, e Gabriel completou, escrevendo a parte falada, característica do estilo.
Este mês Djavan dá início a uma turnê que vai terminar em novembro do próximo ano. São mais de 12 meses, consumidos com ensaios, contatos diversos, shows e muitas horas gastas com viagens e, às vezes, reservadas para compor. "Tenho pouco tempo, por isso é que prefiro gravar com intervalos mínimos de dois anos. Mas o ideal seria três anos, como faz a maioria dos grandes artistas na Europa e Estados Unidos. Aqui no Brasil nossa tradição é do lançamento de um disco a cada ano, mas não considero o tempo certo para se desenvolver um trabalho criterioso, principalmente no caso de quem tem muitos shows, como é o meu", disse ele.

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Roberto Carlos: "Sinto carência de música romântica"
A TARDE, 4 de dezembro de 1997 - Cadeno 2

Roberto Carlos afastou qualquer mudança em sua carreira de compositor e intérprete e disse que vai continuar cantando canções que falam do amor, por entender que está havendo uma carência de músicas românticas. Em entrevista segunda-feira, 1º de dezembro (1997), no Rio de Janeiro, quando lançou o disco "Canciones que amo", o 43º da sua discografia oficial no Brasil, com nove faixas em espanhol e uma em português, ele falou dessa certeza e disse que não se tratava de mudança, mas de um projeto diferente dos discos que tem gravado em português.
O novo disco, apresentado na segunda-feira pela Sony Music, traz algumas alterações na forma. Embora seja o segundo em espanhol que Roberto lança no Brasil, "Canciones que amo" é o primeiro, desde 1961, quando ele começou a carreira (com "Louco por você"), a ter interpretação inédita em espanhol e lançamento mundial. Também volta a trazer título, coisa que não ocorria desde 1968, com "O inimitável". O outro disco em espanhol ("Inolvidables"), lançado em 1992 no Brasil, juntamente com o que traz "Mulher pequena", é uma coletânea de canções antes gravadas por Roberto.  
" Canciones que amo" tem em português apenas a mensagem "Coração de Jesus", de Roberto e Erasmo. As outras, à exceção de "Insensatez", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e versão do próprio Roberto, são boleros do cancioneiro romântico espanhol. Canções que Roberto cantarolava na sua infância ou ouvia no rádio, em Cachoeiro do Itapermirim (ES), muito antes de ele criar o movimento musical Jovem Guarda, na década de 60.
  Na verdade o novo disco é uma volta ao passado, com Roberto gravando bolero e bossa-nova. Ao escolher um repertório antigo, ele argumentou não se tratar de saudosismo, que materializava um sentimento que invade todos aqueles que passam dos 40 anos de idade, de lembrar do passado. "É uma coisa natural, mas não há saudosismo; o repertório antigo tem coisas muito bonita e sinto uma carência de música romântica", disse durante a entrevista, mas assegurou que não tem parado de compor e que seu próximo disco, em português, está praticamente pronto.
Além de falar da sua confiança no disco em espanhol para o mercado mundial e dizer que está satisfeito com o resultado do trabalho, Roberto Carlos mostrou que ainda mantém íntima ligação com a bossa-nova, ao transpor para o espanhol a internacional "Insensatez", de Tom e Vinicius, deixando sua marca de intérprete romântico na letra de um poeta apaixonado. A Sony Music soube aproveitar esta intimidade e levou a coletiva para o Salão Petronius, do Caesar Park, em Ipanema, a duas quadras da Rua Vinicius de Moraes, numa área onde a bossa-nova fervilhou nos anos em que a Jovem Guarda dava seus primeiros passos.
Roberto gastou mais de uma hora falando do seu novo disco, da preocupação com o show que começa este mês, que deverá ter apenas duas ou três canções em espanhol. "As demais serão as do gosto do público", assegurou o cantor. Durante a entrevista, Roberto falou da emoção que sentiu ao cantar para o Papa ("Uma maiores emoções que tive na minha vida"), condenou a apologia ao uso das drogas, reafirmou sua condição de católico praticante e disse que não se preocupa com o fim do Mundo; que o Apocalipse de que fala o apóstolo São João é a vontade de Deus e que a Igreja tem mudado, mas tem sido cuidadosa e equilibrada nas mudanças. Ele anunciou a vontade de fazer um show com Erasmo ("meu irmãozinho") e da possibilidade de voltar a gravar no Brasil (grava nos Estados Unidos), o que poderia dar-lhe condição de lançar mais de um disco por ano.

TRECHOS DA ENTREVISTA
A ATARDE - Além desse disco agora, você já gravou rock, samba, bossa-nova, jazz, blues, bolero, funk, mas sempre tem alguém falando que você não muda. Este disco é uma mudança ?
ROBERTO CARLOS - Não, este disco não considero uma mudança, não. Eu considero um projeto diferente dos discos que tenho feito durante o ano, em português. Não é uma mudança e, na realidade, eu não ia lançá-lo no Brasil. Até setembro a gente não pensava em lançar esse disco no Brasil, eu ia fazer meu disco normal de fim de ano, mas, quando começamos a ouvir o resultado desse disco, achamos que ele podia perfeitamente ser bem aceito no mercado brasileiro, mesmo porque o espanhol cantado por um brasileiro é muito mais claro para um brasileiro entender do que o espanhol cantando por um hispânico. Nós achamos que as letras seriam claras, mesmo cantadas em espanhol e começamos a achar que o disco tinha um repertório bonito, muito romântico e que poderia ser bem aceito no mercado brasileiro. Estudamos com muita calma e chegamos à conclusão que devíamos lançá-lo no Brasil no lugar do meu disco costumeiro em português.
Mas, aí eu pensei, não vou lançar uma mensagem? Eu e Eramos lançamos uma mensagem todo ano. Desde que gravei a canção "Jesus Cristo", que eu e Erasmo fizemos, eu me propus a colocar em cada disco uma mensagem. Então chamei Erasmo para fazermos a mensagem e que vai ser lançada em português, no Brasil, e em espanhol, no mercado hispânico. A mensagem, que se chama "Coração de Jesus".
A TARDE - Você tem projeto para gravar um disco acústico agora, que agora está na moda?
ROBERTO CARLOS - Não, nessa época de lançamento de disco, minha cabeça, meus planos ficam todos voltados somente para esse disco, então de forma alguma me envolvo com outras coisas. Porque é uma grande preocupação o lançamento do disco, a mixagem, a matrização e todo o plano de marketing, essa coisa toda. Então, geralmente não penso em outra coisa. Depois que começo a cantar, realmente não. Depois é outro disco.
A TARDE - Suas canções ao longo desses 38 discos, enfrentaram fases política, econômica e social diversas no Brasil, e sua obra, de certa forma, manteve uma uniformidade e você tem dito sempre que é entrevistado que Deus o ajuda, como ajuda a nós todos. Você se considera um iluminado?
ROBERTO CARLOS - Eu sou uma pessoa que agradece a Deus todos os dias por aquilo que ele me dá e digo sempre que tudo que acontece comigo tem sido presente de Deus. Porque, na realidade, tudo que a gente faz é comandado por Deus, e Ele tem me dado este presente. Primeiro, estar nesse negócio de música e, com a graça de Deus, durante todo esse tempo, estar bem na minha carreira. Enfim, tenho sempre motivo para agradecer a Deus.

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A Volta do Rei
A TARDE, em 13 de novembro de 2000 - Caderno 2

Com cabelos completamente grisalhos - e com os quais disse não se preocupar -, Roberto Carlos enfrentou a imprensa, sábado último (11 de novembro de 2000), em Recife, para falar do show que marca sua volta ao mundo artístico e do lançamento do novo disco, dia 25 deste mês, o qual já sai com 1 milhão de cópias vendidas.
Roberto não escondeu as lágrimas quando falou do seu amor pela mulher, Maria Rita, falecida há cerca de um ano. Disse que estava voltando, mas que não se sentia, ainda, em condição. “Meu emocional está muito mexido, não estou em condição, ainda, mas tenho certeza de que é isso que Maria Rita quer, que eu vá em frente”.
Ele falou que o seu novo disco não traz mudanças, nem sutis nem bruscas, pois é um disco com declarações de amor, dedicado a Maria Rita. “É um disco que evita falar de dor, ou que lembre dor; é um disco que fala do amor, do meu amor por Maria Rita”. Até o início da segunda quinzena deste dezembro, estará sendo lançado o site oficial de Roberto Carlos, com informações sobre sua carreira e links para Novidades, Biografia, Música, Especiais da Globo, Memória, Galeria de fotos. Veja no endereço http://robertocarlos.globo.com

O DRAMA - Há quase um ano, a 19 de dezembro de 1999, o poeta perdia sua musa, sua fonte de inspiração. Recolheu-se, com sua dor, ao seu apartamento, no Rio de Janeiro, e cancelou todos os shows, até o tradicional especial de televisão da programação de final de ano da TV Globo. 
" Estou vivendo sem a presença física da pessoa a quem tanto amo, da pessoa mais maravilhosa, de um amor sem limite", disse, na entrevista coletiva, momentos antes do show, no ginásio Geraldo Magalhães, que dá início a uma turnê pelo Nordeste, incluindo Feira de Santana e Itabuna, no próximo mês.
Ele disse que tem tido o carinho do povo brasileiro, dos seus fãs e dos seus amigos. “Quero agradecer a todos pelo colo, pela atenção que todos têm me dado, neste momento de dor”.
Segundo a fé de Roberto Carlos, Deus não dá a dor, Deus ajuda a superar a dor, o sofrimento. A dor - disse - é algo do Planeta. Por isso, entende que não deve parar a caminhada e que as emoções serão vividas, “um pouco diferente, mas serão vividas”.
Em uma das canções que fez para Maria Rita, e que estará no novo CD, a ser lançado até o final do mês, Roberto canta: “Meu amor por ela ninguém duvida/ porque ela é tudo na minha vida”.
A canção foi feita depois da morte da mulher e, como as outras que integram o disco, formam uma mensagem de amor. As composições não contaram, desta feita, com a parceria de Erasmo Carlos. “O Erasmo é um grande amigo e me deixou à vontade para fazer as canções que saíssem do meu coração”.

OS SHOWS - Quase 10 mil pessoas, de várias regiões do País, assistiram ao show Amor Sem Limite. Ele abriu com Emoções, uma espécie de prefixo, cantando, em seguida, a canção que fez para a amada. A escolha de Recife tem ligação com o começo da carreira: primeiro show fora do eixo Rio-São Paulo, em março de 1972.
O show em Recife estava programado para janeiro deste ano, mas foi transferido, pelo próprio cantor, para março e, depois, para julho, sendo remarcado para setembro e, finalmente, adiado para novembro, com o nome de Amor Sem Limite.
Depois do show do ginásio Geraldo Magalhães, com capacidade para 9 mil pessoas, segue para outros estados nordestinos. Dia 23, estará em Fortaleza; 24, em Natal; 25, João Pessoa; 28, Maceió; 30, Aracaju. No dia 2 de dezembro, chega a Feira de Santana e no dia seguinte, a Itabuna. As estatísticas somam 60 mil espectadores somente no Nordeste, em oito apresentações.

DISCOS - Detentor de um Grammy, como cantor pop latino-americano (1988), Roberto Carlos já vendeu 70 milhões de cópias, desde o início da sua carreira, quando gravou um 78 rpm (78 rotações por minuto), em 1961, com a canção Louco por Você, de Carlos Imperial.
Há dois anos, o “rei” não grava um disco completo, de canções inéditas. O último foi em 1997, Canciones Que Amo. Em 1998, lançou dois CDs - o primeiro, com quatro inéditas e seis regravações ao vivo; em 1999, um álbum duplo, com regravações; este ano, um álbum duplo, com 30 canções em espanhol, retiradas de discos lançados no mercado latino-americano. Estava preparando um álbum com canções sertanejas, mas a morte de Maria Rita o fez abortar o projeto, para entregar-se ao álbum dedicado à amada.

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Canções para uma musa declarada
A TARDE, em 01 de janeiro de 2004 - Caderno 2

O novo disco de Roberto Carlos, Pra Sempre (Sony Music), lançado no início de dezembro, com dez canções, traz cinco de sua autoria, extremamente intimistas e compostas para cantar seu amor à mulher, Maria Rita, falecida em dezembro de 1999. Roberto, que escreveu poucas letras de amor nos últimos cinco anos, tomado pela dor da longa doença da mulher, ressurge neste CD para exprimir seus sentimentos, com letras simples, reafirmando-se como poeta intimista e intérprete romântico. Nada é novo no canto ao amor eterno. Orlando Silva fez isso em extensas e belas canções, como Apoteose do Amor, do poeta Cândido das Neves, e A Última Canção, de Guilherme Pereira.
Entre 1966 e 1968, igualmente sem parceria, Roberto compôs belas peças para declarar amor a Cleonice Rossi, sua primeira mulher, com quem se casou em 1968. Dessa época são Meu Grito, Como é Grande o Meu Amor por Você, De Que Vale Tudo Isso, E Por Isso Estou Aqui, Por Isso Corro Demais e Quando. O fraseado e a melodia de Meu Grito, originalmente gravada por Agnaldo Timóteo em 1967 (Se eu demoro mais aqui eu vou morrer/Isso é bom, mas eu não vivo sem você), mostram o desespero de um jovem em meio ao turbilhão da Jovem Guarda e longe da sua amada. Recentemente, no programa Casa dos Artistas, Agnaldo Timóteo relembrou a história da canção.
Pra Sempre é como se fosse uma ode, dispensadas as divisões das estrofes simétricas e mantidas as composições poéticas cantadas, para falar de um amor declarado, sem subterfúgio, a uma musa declarada. O disco é bonito, feito com propósito bonito, e se escutado com ouvidos sem preconceitos invade a alma com seu lirismo simples, como simples é o amor. A terceira canção, Acróstico, com Roberto ao piano, resume toda a leveza das composições que estão no álbum, cujos arranjos, na maioria, são do maestro Eduardo Lages. A produção do CD, em que o azul predomina sobre o trabalho gráfico, é de Mauro Motta e Guto Graça Mello.

SOZINHO – Da sua obra composta com Erasmo Carlos, o inimitável Roberto Carlos já gravou cerca de 180 canções, mas, para este novo disco – todo dedicado a Maria Rita –, preferiu escrever sozinho, por entender que estaria falando de coisas muito pessoais, exclusivas suas. Ele fez isso no disco Amor Sem Limite, em 2000, quando, também, assinou cinco letras, voltadas para Maria Rita, ainda em vida. “É impossível dividir sentimentos como esse e Erasmo entende, sabe que eu tenho de fazer isso sozinho, embora com ele tenha uma parceria maravilhosa, uma compatibilidade de idéias, uma evolução harmônica perfeita”, disse Roberto, no dia 3 de dezembro de 2003, no Rio de Janeiro, véspera do lançamento nacional do disco.
Cantar o amor sublime, falar daquilo que não mais se pode ter é difícil e doloroso. O próprio compositor declarou: “Todas as músicas falam de coisas ligadas ao meu coração. Pra Sempre e Com Você falam disso e, ao escrevê-las, tive momentos de muita saudade, muitas lágrimas. Cada vez que completava um verso, chorava de emoção”. Foram dores igualmente sentidas, por exemplo, pelo poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), quando, em degredo, escreveu Marília de Dirceu, poema dedicado a Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, com quem iria se casar, mas a prisão política o impediu.
Para completar o disco – que não é todo de canções novas, pois o rap Seres Humanos saiu no álbum de 2002 – Roberto incluiu Eu Vou Sempre Amar você (Eduardo Lages e César Augusto), Como eu te amo (Mauro Motta e Carlos Colla) e História de Amor (Lula Barbosa e Pedro Barezzi), músicas também com declarações de amor, e mais Cadillac, um rock em parceria com Erasmo, que começou a tomar forma ainda em 1998, sob a supervisão de Maria Rita. “Eu ia escrevendo e mostrando a ela, daí ela ficou doente, aconteceu aquilo tudo e a música ficou inacabada”, confessou o compositor.
A canção também tem uma história interessante. Vem nos moldes das letras de Getúlio Cortes (O Feio, O Gênio, Pega Ladrão, O Sósia e Noite de Terror), dos anos 1960, época de O Calhambeque (versão de Erasmo do boogie-woogie Road Hog, de Gwen e John D. Loudermijlk). “Nessa música eu resgatei um pouco do passado, relembrei a Jovem Guarda, uma época da qual tenho muita saudade”, disse Roberto à imprensa. Também sob forte carga de emoção foi gravado o fox Pra Sempre, com duração de 6 minutos e 20 segundos, e dá título ao disco. “Há muitos anos venho fazendo discos apenas com meu nome no título, mas quebrei essa tradição com Amor Sem Limite, em 2001, e este álbum agora”, comentou. Desde o primeiro LP, em 1961 (Louco Por Você), até 1968 (O Inimitável), os discos de Roberto sempre tiveram um título.
A canção que quebra o ineditismo do disco é o rap Seres humanos, sem ser da linha das canções de mensagem (Jesus Cristo, A Montanha, Fé, Luz Divina, Nossa Senhora, O Terço, Coração de Jesus), também é construtiva e atesta a importância do homem na Terra e o seu papel ante o destruidor. Sobre isso, Roberto declarou: “A letra contesta essa idéia de que o ser humano é o culpado por toda a destruição da natureza. Acho que o homem faz muita coisa errada, sim, mas por necessidade; por exemplo, antigamente queimávamos árvores para ter lenha, depois evoluímos, descobrimos outros combustíveis”. 

[As declarações de Roberto Carlos inseridas neste texto foram prestadas à imprensa, dia 3 de dezembro de 2003, pelo cantor, no Hotel Caesar Park, Rio de Janeiro, e divulgadas no site http://robertocarlos.globo.com]

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